Ocupa MinC RN racha, gera polêmica e mal estar, mas continua

O movimento Ocupa MinC RN rachou e o grupo que inicialmente ocupou a sede do IPHAN em Natal, na Ribeira, abandonou o local, sem aviso prévio e satisfação e levando a “boneca da democracia”, símbolo da ocupação e das manifestações contra o impeachment e o Fora Temer. Ninguém sabe quem retirou e onde está a boneca hoje.

O desfecho inesperado ocorreu no meio da semana, após uma tensa plenária em que a tese de desocupar, defendida pelo grupo que iniciou a ocupação, em sua maioria pessoas ligadas ao teatro potiguar e outras ao PT, foi derrotada por estreita margem de votos.

Conversei pelo Facebook e WhatsApp com cinco pessoas que participaram de alguma forma do Ocupa para me inteirar da situação. Algumas são minhas amigas. Decidi preservar o nome de todas. Apenas uma não deu retorno. Outra foi lacônica. Também estive no local no sábado e domingo à noite buscando entender o que aconteceu.

ocupa minc 1

Plenária de domingo à noite realizada em meio a forte chuva

Segundo uma fonte, “conflitos politico-metodológicos” resultaram na cisão. Na noite de ontem (05) o grupo que ficou fez uma plenária e decidiu continuar a ocupação. Uma carta será divulgada explicando a situação. Eu acompanhei a plenária mas não pude ficar até a finalização do documento. Pelo que ouvi, li e interpretei, entre sábado e domingo, a questão foi político-ideológica mesmo.

A forma como se deu o desfecho revoltou os que ficaram e também desagradou a algumas pessoas do grupo que ocupou o prédio desde o início e que defendia a desocupação. Sobretudo a retirada de parte da estrutura (tenda, frigobar etc) e da “boneca da democracia”, que é considerada uma construção coletiva. “Devíamos ter feito isso em coletivo, já que a boneca foi construída coletivamente e tem toda uma simbologia”, disse-me uma das pessoas que participou do movimento.

“Houve uma plenária em que se decidiu sair, mas na hora da votação os anarcopunks que estão acampados, mas não reconhecem a plenária decidiram votar e a plenária acabou optando por permanecer mesmo sem muito gente”, relatou-me uma segunda fonte. Para ela, a ocupação hoje está desvirtuada, mas considera um absurdo a forma como se deu a retirada do grupo que decidiu desocupar.

aocupa

“Ontem {sábado} à tarde passei e vi uma placa “Fora PT”. Sabe o que eu acho? Que usando essas bandeiras, não podem mais se intitular de OcupaMinc. O Ocupa é um movimento nacional que tem uma única bandeira, o Fora Temer. Se querem defender outras bandeiras, ótimo, mas chamem de outro movimento”, continua a fonte.

Para algumas pessoas ligadas à cultura, que participaram ativamente do movimento, a desocupação deveria ter sido simbólica. A ideia era levar a boneca para outros espaços de cultura como Funcarte e Fundação José Augusto.

Entre os que ficaram ficou uma sensação de discriminação e preconceito e desrespeito à democracia (não acatamento do resultado da plenária do meio da semana).

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Por Facebook uma outra fonte escreveu-me: “Sou a favor da desocupação, até para o movimento ganhar força na rua, mas não sou a favor da forma como está sendo conduzido esse final. Abandonamos a galera lá. E não estamos, sequer, conseguindo nos unir mais. Triste. A galera que ficou tb tá bem fragilizada. Aquilo lá, particularmente, não tá me representando mais, até pq já tínhamos decidido que iríamos desocupar, mas não poderia ter sido do jeito que foi”.

A plenária de ontem (05) à noite reuniu 26 artistas. Entre os que conheço, os atores César Ferrario, Titina Medeiros, Denise Araújo, as professoras Ju Ataide e Margareth Vasconcelos, a performer Civone Medeiros, os cantores Yrahn Barreto e Jamilly Mendonça, a jornalista Joanisa Prates, a instrumentista Tiquinha Rodrigues e a percussionista Bianca Maggi. Os demais eu não conheço.

aucio

Diferentemente do final de semana passado, que atraiu um grande número de interessados em assistir a programação cultural, este final de semana era visível o esvaziamento do movimento. Pra completar foi um final de semana com chuvas, o que só agravou o quadro.

Eu fiquei abalado e triste com tudo o que aconteceu. Pela beleza, força e união iniciais o movimento merecia um outro desfecho: todos juntos pra continuar ou abandonar a ocupação.

Na tarde desta segunda-feira, 06, foi publicada carta aberta resultado da plenária. Abaixo, na íntegra.

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CARTA ABERTA À SOCIEDADE

OCUPA MINC RN·SEGUNDA, 6 DE JUNHO DE 2016

O #OcupaMinCRN, movimento mantido pelas pessoas que resistem, vem informar à sociedade que a luta continua, e o que move a luta: #ForaTemer, #ContraTodosOsGolpes, e #ContraTodosOsRetrocessos que o atual atentado à democracia indica. A pauta não mudou! A ocupação se mantém em rotatividade constante contando com a participação de atores sociais das mais diversas orientações políticas. O movimento valoriza a participação, a pluralidade, a autonomia e a autogestão, e resiste até agora em decorrência desses aspectos. Não é intenção fortalecer candidaturas, lideranças ou bandeiras de partidos políticos. O movimento, portanto, é suprapartidário.

Essa experiência política tem evidenciado que o movimento deve estar para a não reprodução de quaisquer manifestações de exclusão ou qualquer forma de opressão através da prática do autoritarismo, seja pelo machismo, pelo racismo, pela homofobia, inclusive dentro desse movimento e de outros movimentos sociais que lutam por um projeto popular de inclusão. Sempre há controvérsias, mas a resistência daqueles que vêm vivenciando os debates, as atividades culturais, o cotidiano do #OcupaMinCRN tem provocado a autopolitização e a revolução individual e coletiva.

Desde o início da ocupação, circularam pelo prédio histórico do Iphan RN mais de cinco mil pessoas, que participaram em mais de 150 atividades, realizadas diariamente, como apresentações artísticas, ensaios abertos, espetáculos, intervenções, debates, rodas de conversas, aulas livres, oficinas, mostras audiovisuais, assembleias e, inclusive, a articulação com outros movimentos políticos com as mesmas pautas de reivindicação.

Entre as experiências mais importantes do #OcupaMinCRN destacam-se a formação política que se estabelece no cotidiano, e a atitude de não exclusão. As discussões se fortalecem por questões que partem da práxis e envolvem a autogestão. Os diálogos provocam reflexões sobre a ruptura da centralização de poder, e questionam modelos hierárquicos de representação política que implicam na fragilidade da Democracia. Existe uma preocupação constante com a insegurança gerada pela instabilidade política, o que remetem a muitas outras questões: O que é golpe de Estado? O que é poder? O que é autogestão?

O movimento #OcupaMinCRN tem certeza que a luta é diária, se sensibiliza e se fortalece com os que apoiaram e apoiam esta ocupação e reafirma que sempre esteve e permanece aberto ao diálogo com quem quer que queira aderir ao movimento, e com a superintendência do Iphan RN, cujo prédio está sendo preservado da forma como foi encontrado.

O #OcupaMincRN convida toda a sociedade para continuar vindo ao Iphan para participar das programações diárias anunciadas. A casa é nossa, chegue junto, participe! Ocupar, resistir e produzir!

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Sheyla Azevedo 6 de Junho de 2016 18:38

    uma pena mesmo. mas, sabe? eu acho que a divergência faz parte do processo democrático. seu texto é muito claro e límpido. particularmente, penso que se já estava havendo esvaziamento, então que o movimento #ForaTemer se fortaleça nas ruas. o que não podemos é dissidir, dispersar. o objetivo é o fortalecimento da democracia. avante!

  2. Yuno Silva 7 de Junho de 2016 20:47

    O movimento nacional Ocupa MinC ficou sem chão com o retorno do Ministério logo na primeira semana de ocupação, e em vez de continuar com a bandeira cultural (que MinC precisamos? quem vai assumir a pasta é representativo? editais, lei de incentivo, pontos de cultura, Funarte, PEC150, Sistema e Plano…) quis resolver todos os problemas de um vez.

    E para não perder a viagem, #foraTemer

  3. CiM 8 de Junho de 2016 15:16

    CARTA ABERTA À POPULAÇÃO: O #OcupaMinCRN ~ http://www.facebook.com/ocupamincrn, movimento mantido pelas pessoas que resistem, vem informar à sociedade que a luta continua, e o que move a luta: #ForaTemer, #ContraTodosOsGolpes, e #ContraTodosOsRetrocessos que o atual atentado à democracia indica. A pauta não mudou! A ocupação se mantém em rotatividade constante contando com a participação de atores sociais das mais diversas orientações políticas. O movimento valoriza a participação, a pluralidade, a autonomia e a autogestão, e resiste até agora em decorrência desses aspectos. Não é intenção fortalecer candidaturas, lideranças ou bandeiras de partidos políticos. O movimento, portanto, é suprapartidário.

    Essa experiência política tem evidenciado que o movimento deve estar para a não reprodução de quaisquer manifestações de exclusão ou qualquer forma de opressão através da prática do autoritarismo, seja pelo machismo, pelo racismo, pela homofobia, inclusive dentro desse movimento e de outros movimentos sociais que lutam por um projeto popular de inclusão. Sempre há controvérsias, mas a resistência daqueles que vêm vivenciando os debates, as atividades culturais, o cotidiano do #OcupaMinCRN tem provocado a autopolitização e a revolução individual e coletiva.
    Desde o início da ocupação, circularam pelo prédio histórico do Iphan RN mais de cinco mil pessoas, que participaram em mais de 150 atividades, realizadas diariamente, como apresentações artísticas, ensaios abertos, espetáculos, intervenções, debates, rodas de conversas, aulas livres, oficinas, mostras audiovisuais, assembleias e, inclusive, a articulação com outros movimentos políticos com as mesmas pautas de reivindicação.
    Entre as experiências mais importantes do #OcupaMinCRN destacam-se a formação política que se estabelece no cotidiano, e a atitude de não exclusão. As discussões se fortalecem por questões que partem da práxis e envolvem a autogestão. Os diálogos provocam reflexões sobre a ruptura da centralização de poder, e questionam modelos hierárquicos de representação política que implicam na fragilidade da Democracia. Existe uma preocupação constante com a insegurança gerada pela instabilidade política, o que remetem a muitas outras questões: O que é golpe de Estado? O que é poder? O que é autogestão?
    O movimento #OcupaMinCRN tem certeza que a luta é diária, se sensibiliza e se fortalece com os que apoiaram e apoiam esta ocupação e reafirma que sempre esteve e permanece aberto ao diálogo com quem quer que queira aderir ao movimento, e com a superintendência do Iphan RN, cujo prédio está sendo preservado da forma como foi encontrado.
    O #OcupaMincRN convida toda a sociedade para continuar vindo ao Iphan para participar das programações diárias anunciadas. A casa é nossa, chegue junto, participe! Ocupar, resistir e produzir! Acompanhe(m) Também via http://ocupamincrn.tumblr.com

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