Ode ao Beco da Lama

Um dia, há muito tempo,  saí do Colégio Winston Churchill, ali no centro de Natal, e fui até o bar de Odete, no Beco da Lama para tomar uma cerveja. Quando cheguei ao bar tinha um senhor grisalho, charmoso, tomando sua birita em paz. Ele me chamou para sentar em sua mesa e começou uma prosa tão interessante que parecia que eu estava ali lendo um  livro. Este senhor era Newton Navarro. Nunca mais esqueci esse encontro inusitado nem esqueci suas palavras sobre a mediocridade que infesta Natal, como o mofo nas frestas. Hoje este cavalheiro incrível é nome de uma ponte que liga Natal a Redinha. Ele teria gostado da homenagem, mas não ao que estão fazendo ao seu amado beco.

Outro dia, no Bar de Nazaré, nas adjacências do Beco da Lama, ali nas proximidades da Asembléia Legislativa, tive a honra de conversar com o poeta Miguel Cirilo, que falava da estupidez humana como poucos. O Beco da Lama é assim um desses lugares que guardam a marca dos grandes boêmios, dos homens que prezam, amam loucamente a cultura imaterial de sua cidade.

Por ali desfilam poetas e pseudopoetas, gênios e medíocres. Por ali transita o sangue puro de uma cidade que detesta seus artistas e adora os fúteis com dinheiro na conta bancária. No Beco da Lama convivi com gente como o poeta Bosco Lopes, magrinho, frágil como um lápis.

Ali conheci muita gente boa e muita gente ruim também, porque humanos são demasiadamente humanos. Qualquer político que tenha o mínimo conhecimento de sua cidade, saberia que o Beco da Lama é a Academia de Letras dos pobres,  a Galeria de Artes dos oprimidos. O prefeito Carlos Eduardo sabia disso.

Qualquer um sabe também que boêmios, intelectuais de mesa de bar, artistas plásticos sem galeria, são também resistentes que nunca tiveram nem terão medo dos poderosos. As administrações públicas vão passar, mas o Beco da Lama permanecerá intacto ao tempo, mesmo que seja só na memória das pessoas que souberam e ainda sabem viver ali.

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Comentários

Há 9 comentários para esta postagem
  1. Maciel 8 de abril de 2012 19:21

    O Beco da Lama deveria constar no roteiro gastronômico-cultural de Natal, o Beco do Bar de Seu Nazir, das noitadas da Boêmia intelectualizada degustadora da cerveja gelada do tiragosto bem têmperado, se você não conhece o Beco da Lama, vá lá , faça uma visita, você não vai se arrepender.

  2. Marcos Silva 1 de setembro de 2011 8:53

    “Acostuma-te à lama que te espera!”.
    (Augusto dos Anjos, Versos íntimos)

  3. lulaugusto 1 de setembro de 2011 1:49

    viva na lama

  4. Jarbas Martins 31 de agosto de 2011 13:36

    amemos o Beco,Carlão, parece mesmo não haver saída.

  5. Cellina Muniz 31 de agosto de 2011 9:39

    Um texto demasiadamente bom! Eu, que estou em Natal apenas há um ano, compreendo e partilho com você sua ode. Viva a memória resistente, viva o Beco da Lama!

  6. Pingback: Ode ao Beco da Lama | Diário do Tempo
  7. Jarbas Martins 30 de agosto de 2011 20:41

    Hai-kai: por dois dedos de fama/ vendi minha alma/ no Beco da Lama

  8. Edjane Linhares 30 de agosto de 2011 18:47

    Meninos, não esqueçam dos 5.0 de Rosa dia 04. Faremos o que e aonde?

  9. Anchieta Rolim 30 de agosto de 2011 17:38

    Massa Carlão, mandou bem! Ontem nós nos lembramos muito de você, eu e Rosa. Apareça homi. Um abraço!

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