Odete Lara, a musa enigmática

Por Luís Antônio Giron
CMAIS

O legado da atriz paulistana que marcou a Vera Cruz, o Cinema Novo e a Bossa Nova

Odete Lara (1929-12015) foi uma das atrizes mais sensuais e carismáticas do cinema brasileiro. Mas seu legado mais relevante está no espírito conturbado que ela deixava transparecer sob sua aura de beleza. Insinuava que tinha muito mais a revelar do que os 40 filmes em que trabalhou exibiam, das farsas de Mazzaropi nos anos 1950 aos painéis alegóricos e políticos de Glauber Rocha nos anos 1960 e 1970. O mistério de Odete Righi, filha de operários italianos, nascida no bairro do Brás em São Paulo, podia se materializar em momentos importantes da história da cultura brasileira. Foi pioneira da comédia cinematográfica brasileira, do Cinema Novo e da Bossa Nova.

Isso porque, além de atuar com competência, era uma excelente cantora. Em 1963, ela lançou o LP Vinicius & Odette Lara (Elenco), no qual, acompanhada pelo violonista Baden Powell, lançara a série de sambas-afros de Baden e Vinicius. Pela voz de Odete estrearam canções que se tornariam clássicas: “Berimbau”, “Samba em prelúdio”, “Deixa”. Foi uma das vozes mais marcantes da segunda fase da Bossa Nova. Basta ouvi-la para se der conta da delicadeza de suas interpretações.

Começou fazendo comédia, como O gato da madame (1956), ao lado de Mazzaropi, para depois impor a imagem da loira fatal dona de um cérebro. Seus olhos azuis emitiam radiações de inquietação e inteligência, mesmo nos papéis mais banais. Marcou época quando contracenou com Norma Benguel no soft porn Noite vazia (1964), do diretor Walter Hugo Khoury. Neste longa-metragem “sujo”, Odete interpretava uma garota de programa de luxo Pela primeira vez, o cinema nacional exibia cenas de lesbianismo e ménage à quatre, em uma jornada infernal pela noite de São Paulo, seus clubes e restaurantes de “peixe cru” – como se chamava o sushi naquele tempo.

O charme deslumbrante de Odete correspondia à sua vontade de discrição. Aos poucos, foi se retirando de cena. Fez algumas novelas de televisão e desistiu da música. A partir dos anos 80, dedicou-se a escrever livros – com igual talento com que atuava e cantava – e ao retiro espiritual em sua casa em Nova Friburgo, onde cultivou a meditação e o budismo. Estudou na Califórnia com o famoso monge Thich Nhat Hanh.

Sua carreira literária se iniciou em 1975 com a autobiografia Eu, nua. Com total franqueza, contou sua história de triunfos e decepções no cinema brasileiro. É um dos relatos mais impressionantes do processo de exploração da mulher e de construção de mitos no mundo cinematográfico nacional. Seguiram-se os livros Minha jornada interior (1990) e Meus passos em busca da paz (1995). Nesses exemplos de pura não-autoficção, revê. A inutilidade da cultura das celebridades e como encontrou a paz interior na solidão – na extrema solidão, que fez questão de cultivar, longe do vasto mundo de vaidades. Sua trajetória foi de renúncia: da carreira como diva do cinema, como cantora, como escritora. O budismo a ajudou no último ato de abandono. Seu rosto continuará vivo nas telas, como um desafio à reflexão. É como se perguntasse eternamente a quem a contempla: “Você acredita em uma miragem?”

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