Odisséia (dos tempos em que líamos Cortázar)

Por Jarbas Martins

quando eu te encontrei, n., digamos em um maio de chuva, álcoois, textos de paul celan, filmes de orson welles, citações musicais de caetano, não pude sondar o teu mistério; quem sabe, pensei, pudesse irromper-se de vez, da tua garganta, branca como a de uma papisa, a exclamação que me acordasse do tédio e do desconforto. e me levasse para sempre a uma ilha submersa, ou a um porto sepulto como o de ungaretti. depois, o teu marido, a minha má vontade para com as bússolas e os cruzeiros marítimos, a minha primeira mulher não me permitiriam que me visse nos teus olhos, brilhantes como os de palas athena, me smo porque ler homero nunca estivera nos meus planos. vem ,desde esse tempo, o estabelecimento de um rigoroso pacto, que consistia em um jogo de ocultamentos e revelações, como no jogo de esconde-esconde, lembras? e, passados vinte anos, nos leva a supreender-te e a surpreender-me em um hábito, em um gesto, deslocados de uma cor, de um sistema, de uma rotina e, desse modo, vivermos ocultos e fervorosos como dois crentes, incrédulos e fantasiosos como uma fábula circense de fellini; planejamos, então, um itinerário de fuga e deserção, só pelo prazer de sentir, na carne, um sentimento de covardia, a consciência dessa fuga, ,deus sabe para onde; projetos e roteiros meticulosamente calculados, segredados pelo telefone, em um bilhete, à maneira de um poema e ilustrado com desenhos, entregue por baixo de uma mesa de bar; ou proclamados com um simples levantar de sobrancelhas…

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