Ofertório

A Márcio

Trago para ti é uma voz barroca, encampada pelos ecos e pela rouquidão dos quereres escuros.
Eu te oferto as mãos que outrora rabiscaram bisões, eu te dou mãos de procura, as mãos mesmas da procura por ti.
E a inocência turva desta procura, tutelada pela angústia do pecado de buscar.
Dou o que sou: vastidões onde as vagas se formam pela hostilidade das ventanias e toda eu me encrespo de ternuras.
É o que tenho. Procurei a ti como quem se arremessa, teu amor procurei onde o mistério se trinca e se fende, onde há a semeadura e a ceifa.
Eu te trago um jeito mergulhador de quem é infenso a desistências, mas também te trago dúvidas, mas também te trago crenças.
Mas também trago secura, de nascença. Mesmo seca, frutifico. Broto no meio da aridez. Fui destinada à teimosia.
Precipito-me, mas a minha precipitação é a de quem vai ao fundo das coisas, e fica, sob águas tintas de espera.
Trago é uma nostalgia de anáguas. Eu te oferto uma alma penada, alma de errâncias: a alma branca de Isolda, a alma suicida de Ofélia, a alma crente de Ariadne, a alma tecelã de Penélope, a alma calosa de Pandora, a alma feiticeira de Circe.
Sei dos restos de insônia desejante, andrajos com os quais me vesti. Sei que chego pedinte, sedenta, faminta. Sei que me fiz onde o consolo não basta, onde só o tudo é suficiente. Sei que dou, mas peço muito.
Trago para ti o visgo do âmbar. A eternidade da lágrima da ostra. A recorrência da lua.
Eu te procurei com os ritos do instinto, procurei os teus sins e os teus nãos, as tuas ambigüidades. Os teus nãos, eu sabia, eram só as beiradas do teu mistério. Procurei tuas procuras, tua perene inquietação. Procurei a ti como a faca procura afiar-se, com a sinceridade das lâminas.
Sou o que dou: indagação. Pés entre encruzilhadas. Olhos e olheiras terrosos de olhar agruras. Sangue fustigado pela ausência do deus.
Eu te oferto a nudez felpuda do silêncio e a veste grosseira da palavra.
Trago-te premonições. Labaredas para iluminar as charnecas. Também mandingas, patuás e figas. Também sortilégios, porque eu não te acredito, mas que tu existes, existes.
Eu te procurei entre danações. Eu te procurei no pleno e no vazio. Eu te procurei sob a intempérie. Eu te procurei entre hóstias. Eu te procurei entre nódoas. Eu te procurei na germinação das graças.
Para dar-te o que sou.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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