Oh, Ana

Por Sebastião Vicente

Quem diria, seis meses atrás, que a crise que marcaria os primeiros 100 dias do futuro governo Dilma estaria no Ministério da… Cultura! Nem nos embates com o PMDB – a posição do partido na votação do salário mínimo desmoralizou dez entre dez analistas políticos da imprensa escrita, televisada e internetizada – nem nos constrangimentos diante dos evangélicos de extração medieval e tampouco frente à economia propriamente dita, que a grita diante dos cortes no Orçamento é como uma crítica do PSDB que se autodesmente (como é que um partido tão partidário de restrições de gastos e investimentos públicos pode criticar cortes, me explique quem puder).

Bom, na falta de uma inflação realmente aterrorizante – e diante de um pibão que a imprensa registra com cara de criança mimada que não quer dar o braço a torcer – e outras catástrofes governamentais tão esperadas, sobrou a pobre da… cultura. E parece que não poderia haver ninguém mais apropriado para ancorar essa crise inexistente nos demais prédios da Esplanada dos Ministérios do que a pobre da irmão de Chico Buarque. Trato a ministra assim porque é assim, pejorativamente assim (houve um tempo em que ser irmã do Chico Buarque seria um elogio automático), que ela começou a ser tratada tão logo teve seu nome anunciado. A revista “Veja” meteu-lhe na cara duas páginas daquelas ultraeditorializadas com pitadas de rancor e doses cavalares de ressentimento vindo não se sabe bem de onde. A ministra nem tomara posse e já foi tachada de, no máximo, “irmã do Chico Buarque”, como se esse fora o maior dos defeitos que um ser humano pode ter. Nem de “filha do Sé rgio Buarque” a criatura teve a piedade de ser chamada. Era ruim, péssima, infeliz escolha só por aquele outro predicado. Uma raça condenável a priori pela Veja, a dos irmãos, filhos e netos do autor de “Vai Passar”.

Parecia o anúncio antecipado do que viria a seguir. Mas o que veio a seguir complicou um pouco mais as coisas. Caímos todos, Ministério e seus expectadores, jornalistas e ativistas culturais, majors da música e alternativos da mais tenra indigência criativa, na vala de um debate que parece tragar a todos sem explicar bem o que se passa a ninguém. Ecad, Criative Common, anteprojeto de lei do direito autoral, Emir, autistas e afins parecem legumes a girar no caldeirão de uma sopa confusa, pastosa e de sabores variados dependendo de quem dela vai se servir a título de degustação ou como último recurso para matar a fome.

Para além da crise em si, que existe de verdade e envolve correntes de pensamento político dentro do governo embora às vezes pareça só uma projeção dos debates virtuais na internet, há uma grande falta de comunicação. Um grande “e eu com isso” escrito numa faixa visível somente aos olhos do brasileiro em geral e pendurada no alto do primeiro prédio daquela rua tipicamente brasiliense chamada Esplanada dos Ministérios. Nem os ativistas da liberação mais do que compreensível dos conteúdos que caem na grande rede virtual conseguem se fazer entender – e parece que não pretendem mesmo ir além do muro do gueto de bits e bytes – nem a ministra parece ter a capacidade de colocar as coisas nos seus devidos lugares, justificar de maneira acessível suas decisões e chamar a atenção da população em geral para o problema, angariando alguma adesão. Não precisa nem botar Emir Sader nesse balaio, que o problema começou bem antes.

Oh, sim, o nome da ministra é Ana. Ana de Hollanda, com o perdão do sobrenome.

www.sopaodotiao.blogspot.com

Comments

There is 1 comment for this article
  1. carlos de souza 14 de Março de 2011 9:29

    beleza, sebá!!!!

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