Oitavo capítulo do livro “O Dia dos Cachorros”, de Aldo Lopes de Araújo

OITO

CALUZINHA CHAMOU A TIA AO QUARTO PARA contar-lhe algo, em seguida retirou o papel dobrado de dentro de um envelope e o leu com o fôlego entrecortado de breves suspiros. Convocar alguém para uma conversa dentro de quatro paredes era a confirmação cabal de que o pedido de segredo já vinha subentendido. O bilhete do comandante, expresso num escrevinhado em desaprumo, oscilava nas linhas paralelas do papel, embora se afigurasse firme no dizer do seu coração. O homem, capaz de desarvorar qualquer mulher, viria para o almoço.

Fressura era um prato completo porque tinha tudo do bode: a buchada, a cabeça, o caldo com que se faz o pirão, além das tripas enroladas nos pés do bicho. Para a sobremesa Caluzinha providenciou queijo de cabra cortado em cubos e mergulhado no doce de gergelim. Dali do meio daquele fausto de comida, tudo muito bem disposto numa mesa larga, Caluzinha espiava para o quadro da Santa Ceia pendurado na parede acima de uma grande cristaleira. E era uma míngua só: uns poucos pães, um pequeno odre de vinho e muitos homens em volta, pintados para viverem ali por toda a eternidade, a espera que Jesus os abençoasse, desse a todos de-comer e enchesse seus cálices até a borda.

À mesa, Barbaciano ouviu a enfadonha conversa do comandante e bocejou várias vezes. Caluzinha trazia café e falava com o pai viciado numa rede depois do almoço. O comandante prometeu guardar boas recordações da cidade e seus habitantes. Cavalos descansados e homens bem alimentados, amanhã mesmo zarpariam. Barbaciano engoliu uma mosca e tossiu em grande estrépito.

— Mosca não, mas por esses brasis afora enfiei muita coisa dentro dessa pança — disse o comandante, batendo na própria barriga — muita carne de jacaré, paca, tanajura, cobra e macaco. Só me falta agora comer gente.

— E capim — completou o coronel.

O convidado abaixou as vistas, constrangido. Caluzinha deixou cair uma xícara, espalhando cacos por toda a sala.

Depois que o comandante se despediu, a moça esperou a tia sair para a igreja. No instante em que Minervina acabou de escalar os últimos degraus da escadaria, Caluzinha despachou-se para o lugar onde planejara ir ainda há pouco quando os seus olhos dançaram na mira do par de olhos do convidado ilustre.

Caluzinha se desvestiu dos hábitos da sua quase viuvez, aspergiu cheiros em seu corpo e entrançou os cabelos com tal graça e arte como nunca tivera vontade de fazê-lo antes. Depois atravessou a rua a pé, dobrou a esquina do Vapor Velho e, ao se aproximar do corpo da guarda do acampamento, um oficial, que já a esperava, anunciou-a. O comandante, tomando a moça pela mão, convidou-a a entrar. Era uma tenda pouco confortável, com parte da lona de cobertura arriada para que entrasse a luz da lua, tão clara que de pouco ou quase nada servia o candeeiro. Ele sacudiu várias almofadas de penas de ganso sobre a alcatifa e se acomodaram.

Quando, lá para as tantas, o comandante encostou seu tórax enorme nos seios desnudos de Caluzinha, ela escorregou os lábios pela barba até a orelha e sussurrou um pedido. O comandante assentiu com a cabeça e aquilo bombeou mais agonia no coração da moça, um coração em vias de arrebentar o peito que guardara cinco anos de tristeza e solidão, mas que agora expectorava tudo, junto com o ar, entrando e saindo, no alvoroço do descompasso.

O capricho de um criminoso roubara-lhe por muito tempo momentos como aquele, amargava Caluzinha, dando início a sua vingança. Portanto já antevia o comandante despachando chumbo no salafrário e a calçada lavada de encarnado e ela chorando de alegria.

O luar viscoso se derramava sobre a barraca, e a luz opaca do candeeiro borrava de sombras os corpos dos amantes, bem diferentes daquela sombra que existia dentro de Caluzinha e que a impedia de ser mulher, mas que agora estava se diluindo como se diluía na lona oblíqua a silhueta do comandante jorrando prata. E enquanto a moça relinchava de gozo e se urinava, o comandante imaginava os cavalos desembainhando as espadas negras e enormes para matar a saudade das éguas.

No dia seguinte, o comandante se postou solene no meio da praça e mandou arrastar Salviano Lourenço de dentro de casa. Caluzinha indicara a pessoa certa para dar a informação. O assassino do seu noivo vivia escondido numa fazenda na Cabeça-do-Porco e vez em quando se encafuava no sótão velho da casa onde vivera com sua falecida mãe. Um casarão imponente, dos mais antigos de Princeza, que finalmente fechara suas portas.

Depois da morte da mãe e dos estragos da bubônica, Salviano relaxara. Não fazia questão mais de se esconder. A família do doutor morava distante de Princeza. O coronel Barbaciano, que nos primeiros dias após o crime ensaiou tomar uma providência, com o tempo se desarmou. O crime acabou caindo no esquecimento, só dele se lembrando os habitantes de Princeza no dia e no momento em que ouviram da boca do comandante a ordem:

– Se ele não sair, quebrem a porta!

Quatro homens se aproximaram munidos de machados. Não foi preciso. Logo se ouviu o estalo da chave girando a lingueta da fechadura. Salviano saiu de cabeça baixa, como um rato de uma toca, branco, branco, sem um pingo de sangue.

O comandante desceu do cavalo e saiu arrastando o homem pelo colarinho até o meio da praça. Muito educado e gentil, ele ia pedindo licença às pessoas que se amontoavam pelas calçadas. Salviano olhava para o chão e não dizia uma palavra. Mais a frente, ao pé do coreto onde a banda de música fazia suas retretas e as autoridades discursavam durante as comemorações cívicas, o comandante parou. Salviano não disse nada. O comandante também não. Não era preciso. A multidão gelou quando o comandante, ele próprio, fez questão de avocar para si, publicamente, a responsabilidade por aquele gesto extremo. Foi uma execução rápida e fria. Ele encostou o cano do fuzil na cabeça de Salviano e o matou com um tiro só.

No dia da partida dos cavaleiros, muita gente correu para o pátio do Vapor Velho. Caluzinha pôs um véu para disfarçar e, como as outras mulheres, chorou, sacudiu o lenço várias vezes, mas o comandante não era homem de olhar para trás.

Nunca mais Caluzinha o veria. Estava certa de seu pressentimento. Mal acabou de pensar, um vento quente varreu Princeza e assoprou nos quartos dos cavalos como se expulsasse os forasteiros. O mesmo vento que sempre aparecia nos seus sonhos. Caluzinha conhecia bem a natureza desses ventos, da mesma forma que tinha predestinação para os amores trágicos e impossíveis. O comandante se foi, mas a semente, deixada por ele, Caluzinha só viria a ter certeza alguns meses depois, quando sentiu o primeiro chute na barriga.

— É um menino e vai se chamar José Rafael! — revelou para a tia.

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