Oitenta igual a vinte e dois

Por José Castello
A LITERATURA NA POLTRONA

Recebo do jovem escritor Felipe Munhoz _ um talento a ser descoberto – novos pensamentos arrancados dos romances do escritor americano Philip Roth. Felipe é um leitor apaixonado de Roth. Em março do próximo ano, a convite da “The Philip Roth Society”, estará em Newark, Nova Jersey, cidade natal do escritor, para as homenagens em torno de seus oitenta anos. Participará de uma mesa de debates. Mediará outra. Não consegue parar de reler sua obra.

O primeiro pensamento, que Felipe tomou de “Pastoral americana”, romance que Roth publicou em 1997, anuncia: “Viver é entender as pessoas errado, entendê-las errado, errado e errado, para depois, reconsiderando tudo cuidadosamente, entender mais uma vez as pessoas errado. É assim que sabemos que continuamos vivos: estamos errados”.

O segundo pensamento, eco do primeiro, que Felipe caçou em “Casei com um comunista”, livro de 1998, diz assim: “Tudo é erro – falei. Não é isso o que você está me dizendo? Só existe erro. Isso é o coração do mundo. Ninguém consegue encontrar sua vida. Isso é a vida”.

Roth começou a publicar ficção no ano de 1962. Seu romance de despedida _ como acaba de anunciar – é “Nêmesis”, de 2010. Ao longo de 48 anos, publicou trinta ficções. A cada ano e meio, pouco mais, um novo romance. É, inegavelmente, um homem que tem o que dizer. Contudo, o erro _ sua afirmação como fundamento da vida, sua celebração _ está no centro de sua obra.

Ao contrário dos escritores “cheios de si” (modelo do homem contemporâneo “bem sucedido”) , Roth é um homem “vazio de si”. Reconhece a eterna luta humana para chegar a seu centro. Reconhece, ao mesmo tempo, o fracasso dessa luta. Por fim, é capaz de reconhecer que esse fracasso, em vez de improdutivo, é produtivo. É dele, e da teimosia em resolver o que não se resolve, que tiramos alguma coisa. É assim, ele nos diz, que continuamos vivos.

Sempre tento transmitir isso em minhas oficinas literárias: que os alunos não devem acreditar em suas certezas. A literatura não é feita de certezas, mas de incertezas. A escrita é uma espécie de cola (inoperante) com que tentamos vedar o desacordo entre o que pensamos ser e o que somos. Conseguimos isso? Não. Mas o esforço nos move e nos leva a escrever. A viver. É o que importa.

Digo isso, e eles me olham, quase sempre, com espanto. Abdicar de seus truques? Abrir mão de suas bengalas? Deixar de lado aquilo mesmo que os sustenta? Como posso sugerir tal coisa? E ainda mais: adverti-los de que, mesmo que façam isso, não chegarão ao que pretendem chegar, mas a outra coisa, sempre a outra coisa? Agora me pergunto: será esse estupor um efeito da juventude? Não creio. Felipe Munhoz tem 22 anos.

Escrever não é encher-se (de si), mas esvaziar-se. Escritores estão acostumados a falar a respeito do esgotamento infernal _ como o sugar de um vampiro _ que o trabalho da escrita lhes provoca. Disso nos fala Roth: há um desgaste, e mais outro, e ainda outro. O que interessa, talvez, não seja o livro, mas o processo. O caminho. O livro é um resto do que se tentou dizer e não se conseguiu dizer. Uma ficção é, sempre, outra coisa. Como uma fotografia, que nunca consegue expressar a experiência de uma viagem.

Lembro-me que, certa vez, Hilda Hilst me telefonou para falar de sua perplexidade diante de certo relato que terminara de escrever. “Isso não é meu”, ela insistia. “Mas foi você quem escreveu”, eu respondia, desde minha ignorância. “Não importa, não é meu, não me pertence”. Hilda acreditava em fantasmas, em vozes do além e em extra-terrestres. Estava sempre empenhada em contactar a origem longínqua das palavras. Não precisava ir tão longe, hoje eu consigo pensar. Bastaria que se debruçasse sobre a língua, grande rio que nos arrasta para longe de nós. Esse arrastar _ essa flutuação inexorável, mas bela _ é a existência.

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