Onde eu fui me meter

Eu sempre soube que a minha área era humanas e que a comunicação pulsava forte. O bom era fazer arte, mas o melhor, pra mim, talvez fosse procurar uma faculdade que desse previsão de carreira e emprego. Essa história de ter que decidir o futuro com 16 anos é uma puta sacanagem.

Nessa idade, eu fazia teatro e dança contemporânea no DEART. Depois que a pessoa entra no DEART e gosta, é difícil querer sair. Lá estava eu, no auge da adolescência, bebendo arte, rodeada de gente que também a bebia. A gente se embriagava e a ressaca era ter aquele pensamento voltando no dia seguinte: será que é isso mesmo? Será que vai ser minha profissão?

E eu continuei… Fui me metendo, adentrando linguagens, experimentando, me deixando vive-las. Fiz circo e também me arriscava a escrever uns poemas.

Eu disse a mainha e a painho que ia prestar vestibular pra teatro. “Qualquer coisa eu posso ser professora”, era a desculpa que eu dava pra me conformar com a incerteza. Não passei. Decidi fazer jornalismo. Não passei. Eu era da turma da bagunça mesmo, se é isso que você está pensando. Acabei indo pra uma universidade particular e isso veio com uma decisão: “nada de jornalismo, eu vou fazer cinema!”.

Eu não sabia quantas possibilidades de profissões existiam no cinema, eu não sabia como era o movimento local nessa área, eu não era cinéfila, eu não conhecia uma porrada de diretores, eu não sabia nem o que eu ia fazer naquele curso e depois dele. Convenci meus pais, mas me cagando de medo.

Agora tu vai, não volta atrás!

Com quatro anos de graduação, dois de especialização e, em paralelo a isso, seis anos de Coletivo Caboré Audiovisual (em outro momento eu falo sobre ele), eu tomei gosto pela prática e teoria. Me encontrei em diversas áreas dentro do cinema. Nunca gostei de ter só uma opção pras coisas, mesmo que isso gere dúvidas.

Descobri que eu podia tá à frente e atrás da câmera, que eu podia escrever, que eu podia coordenar, que eu podia pensar luz, câmera, cor, cenário, tanta coisa. Experimentei e continuo experimentando, apesar de hoje trabalhar mais como Produtora. 

Nesses anos eu fui adentrando a cena local, fazendo cursos, participando de reuniões, descobrindo a área. Fui alimentando a certeza de que eu podia trabalhar com audiovisual. 

Umas das coisas que mais me perguntam, até hoje, quando falo sobre cinema, é sobre quando eu vou embora de Natal. Sempre tenho vontade de responder “quando EU quiser”, enfatizando mesmo o eu. Mas aí finjo certa compreensão na pergunta, afinal a gente sabe que trabalhar com cultura em Natal é um tanto difícil. 

Acontece que eu me descobri num cenário em efervescência, em desenvolvimento, e eu estava com tanto sangue no olho que era capaz de queimar a retina. Em outras palavras, de me precipitar. Graças às deusas eu continuei e fui entender sobre mercado, políticas públicas para o audiovisual, fomento, leis etc.

Aos trancos e barrancos, a gente vai levando nosso estado pro mundo inteiro através das nossas produções. Vai levando um pouquinho de nós, da nossa gente, do nosso olhar. O cinema potiguar tomou seu lugar depois de anos de uma história com hiatos.

O fato é que esse caminho árduo se torna ainda mais árduo quando a gente se desgasta, quando a luta é difícil. 

Making Of de “Sem retrato e sem bilhete”; “Graças às deusas eu continuei e fui entender sobre mercado, políticas públicas para o audiovisual, fomento, leis etc”

O mercado tá ralado!

Financiamento é uma das maiores dificuldades no trabalho com arte e cultura no Brasil. No que tange o audiovisual potiguar, em 2013 foi lançado o primeiro edital municipal, o Cine Natal. Com patrocínio de 15 mil para cada um dos três projetos selecionados, o edital marcou uma fase importante para a nossa história. Finalmente os gestores passavam a olhar pra gente. 

Em 2014, o município acessou pela primeira vez os Arranjos Regionais da Ancine/FSA, uma suplementação de recursos financeiros. Nesse ano, o edital foi de R$300 mil, sendo dois terços oriundos do FSA, contemplando seis curtas e dois festivais. 

Em 2015, participei do ato “Claquetada Cultural”, em que reivindicamos pendências que se arrastavam do Cine Natal 2013, pagamentos do edital de 2014 e outras questões. Conseguimos diálogo e resoluções, em partes. Não houve Cine Natal 2015. O então prefeito, Cadu, remanejou a verba prevista para o audiovisual, pois isso não era prioridade para a prefeitura.

Em 2016 o edital voltou à ativa. Porém, em 2017, nós o perdemos novamente. Essas pausas poderiam ter feito o setor se desestimular, mas não foi o que aconteceu. Tivemos uma crescente nas produções, os filmes entraram no circuito de festivais internacionais, tivemos a representação norte-rio-grandense em muitos lugares do mundo. Mas o diálogo com os nossos gestores continuou difícil.  

Lembro de diversas reuniões para reformular o edital, de reuniões para “mendigar” uma verba da prefeitura e explicar incansáveis vezes como era vantajoso para o município. 

Além disso, também houve tentativas de fracasso com o governo do estado. Chegamos a conseguir uma ementa do deputado Fernando Mineiro, para somar a um valor irrisório do Estado e assim lançar o edital. Esse processo demorou anos e, em 2018, a FJA lançou uma minuta do edital que morreu na minuta mesmo. O governo Robinson nunca destinou um real para o audiovisual. 

Making Of de “Janaína Colorida Feito o Céu”; “Estamos fazendo história, e não falo das histórias que contamos nos filmes.

Audiovisual potiguar: Mercado

Em 2018, o Cine Natal saiu nos quarenta e cinco do segundo tempo. Foram poucos dias para desenvolver projetos e inscrevê-los. Mas, pelo menos, a verba aumentou, assim como o número de projetos contemplados. 

Diante da demanda do audiovisual potiguar, hoje, a gente deveria ter políticas públicas em outro nível. É sabido que Pernambuco demorou anos para chegar onde está, mas a diferença é exorbitante. O último edital do Funcultura Audiovisual, 2017-2018, foi de 25 milhões, sendo mais de 10 milhões do Funcultura e o resto do FSA. A Bahia lançou recentemente seu edital e disponibiliza cerca de 5 milhões do Fundo de Cultura da Bahia, com mais 15 milhões do FSA. 

Outra questão é a diversidade de categorias que esses editais abraçam. São longas, médias, curtas, produtos pra televisão, formação, games, pesquisa, preservação, cineclubismo… Enquanto no RN, nós continuamos só podendo produzir, com certa dignidade, curtas-metragens. 

As diversas categorias contempladas estão totalmente ligadas ao valor de aporte dos editais. É por isso que aqui a gente só consegue contemplar curtas e festivais. Sem contar que o número de profissionais que fazem uso do edital é muito baixo.

Making Of de “Sem retrato e sem bilhete”; “A previsão de tempo de luta é grande, mas a cadeia produtiva nos dá certeza de que vamos chegar lá em algum momento”.

Poderíamos hoje estar acessando também as leis de incentivo municipal e estadual, porém, as empresas ainda possuem certa resistência para projetos audiovisuais. Continuam achando mais vantajoso terem suas marcas atreladas a eventos e festivais.

Outra problemática do mercado audiovisual potiguar é a questão do financiamento apenas para curtas-metragens. Hoje, os editais federais, geridos pela Ancine, complicam bastante a vida dos novos realizadores. Existe a pontuação da empresa proponente que inabilita um grande número de projetos.

Essa pontuação é definida através do currículo da proponente e, infelizmente, curta-metragem não conta quase nada. Sendo assim… as grandes produtoras continuarão aprovando projetos mais facilmente e as pequenas continuarão lutando arduamente, ou não.

A previsão de tempo de luta é grande, mas a cadeia produtiva nos dá a certeza de que vamos chegar lá em algum momento. A gente tem uma coisa muito bonita acontecendo aqui. Estamos fazendo história, e não falo das histórias que contamos nos filmes. Me refiro a história política, de mercado, de conquistas de um setor, do audiovisual potiguar.

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Comments

There are 3 comments for this article
  1. Maria Gilza de Medeiros Conta 2 de Maio de 2019 14:13

    Babi Baracho dirige com seguranca. Chegou voando… Vai dar muito o que ver e o que falar.

  2. Erick Henrique 2 de Maio de 2019 14:40

    Esqueceu de falar que também é uma ótima professora, que faz com que os alunos fiquem apaixonados pela parte de produção(raro isso acontecer).
    Gostei muito do artigo, dá pra ver onde você foi se meter e o quanto você quer mudar essa realidade.

  3. Pedro Fiuza 2 de Maio de 2019 18:08

    Parabéns Babi! Que massa esse panorama!

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