Onde fica a privacidade?

Por Adriana Barsotti
O GLOBO

Vinte e um anos depois de ter escrito “A sociedade do espetáculo” (Contraponto), o filósofo francês Guy Debord afirmou, em 1988, comentando sua própria obra: “Posso me gabar de ser um raro exemplo contemporâneo de alguém que escreveu sem ser imediatamente desmentido pelos acontecimentos”. Se estivesse vivo, teria mais motivos ainda para se gabar. O livro, escrito numa época em que não havia YouTube, blogs, fotologs e redes sociais, afirmava que o espetáculo era a principal produção de uma sociedade que privilegiava a visão. O que diria ele agora das redes sociais com georreferenciamento, o mais recente fenômeno digital, onde todos não apenas querem ser vistos, mas localizáveis?

Com algumas diferenças, elas funcionam assim: ao chegar a determinado local, o usuário, através de seu celular, recebe uma lista de restaurantes, supermercados, parques, academias, farmácias, shoppings ou qualquer outro tipo de estabelecimento perto de onde se encontra. A partir daí, ele pode encontrar na lista o local onde está e fazer um check-in. Se ele ainda não estiver cadastrado, ele mesmo pode fazê-lo. Ao fazer seu check-in, ele pode optar comunicá-lo aos seus amigos da rede social móvel que está utilizando e também à sua rede no Facebook e no Twitter. Além de revelar sua localização, ainda pode acrescentar alguma mensagem do tipo: “afogando as mágoas num milk-shake de chocolate”. Também pode não comunicar a ninguém, opção que parece bem menos atraente aos usuários.

Com o limite cada vez mais frágil entre o público e o privado e as possibilidades de superexposição multiplicando-se, o que estaria motivando essa ditadura da intimidade, que agora pode ser literalmente mapeada? Um novo conceito de privacidade estaria surgindo? As redes sociais que usam o GPS trazem várias discussões à tona: o uso mercadológico, pois na Europa e nos EUA muitas já oferecem vantagens a seus usuários, a da falta de segurança — se você está em algum lugar é porque não está em casa — e a da falta de privacidade, foco deste debate.

— A intimidade hoje não é a mesma do século passado. Vivemos numa sociedade confessional — analisa o psicanalista Chaim Samuel Katz (veja entrevista no post abaixo).

Entre o narcisismo e o ativismo

Autora do livro “O show do eu: a intimidade como espetáculo” (Nova Fronteira), Paula Sibilia, professora do Departamento de Estudos de Mídia da UFF, usa a metáfora da ilha deserta para ilustrar o excesso de exposição.

— Agora não temos mais como fugir, não temos a ilha deserta. Na sociedade burguesa do século XIX, havia o lado prazeroso de se ficar em casa, mas a fuga era possível. Hoje todos somos localizáveis e disponíveis o tempo todo. Estamos amarrados. É paradoxal que a retórica desses dispositivos jogue com a liberdade, pois estamos cada vez mais presos — analisa.

O assunto está longe de alcançar consenso entre os estudiosos da cibercultura e da mídia. Em maio, a revista “Time” incluiu o Foursquare, a mais popular rede social móvel que usa GPS, na lista das 50 piores invenções de todos os tempos. No dia 16 do mês anterior, foi comemorado o Foursquare Day em 250 cidades e 35 países. “É apenas outra ferramenta ajustada a uma geração de narcisismo”, afirmou a revista. No outro extremo, a mais prestigiada publicação de tecnologia, a “Wired”, estampou no mês seguinte em sua capa o criador da ferramenta, Dennis Crowley, apresentado como “o rei das redes sociais”.

Dados são coletados e usados para fazer perfis

Diretor do Pan-Media Lab, da ESPM, e professor da UERJ, Vinícius Pereira é cauteloso ao analisar as redes com georreferenciamento. Ele lembra que a ideia de interioridade era o que $dar consistência à existência do indivíduo até o século XIX, mas agora os atributos valorizados são cada vez mais o instantâneo e o atual:

— Hoje, o quarto privado é o blog.

Porém, ele acredita que o exibicionismo é apenas uma das motivações para o uso dessas redes. Pereira faz um paralelo com o Twitter. Criado para ser uma ferramenta de mero exibicionismo (a pergunta “O que você está fazendo?” não deixava dúvidas), ele ganhou outro status, entre eles o de ter se transformado numa poderosa fonte de informação. Pereira ressalva que o mesmo movimento já pode estar em curso nas redes sociais móveis com GPS. Alguns usuários do Foursquare, a mais popular delas, já estão modificando o conceito original da rede ao fazer check-ins em engarrafamentos que encontram em seus trajetos pela cidade.

— A exposição do ego é uma questão redutora. Ao informarem sobre as condições de trânsito, os usuários podem estar fazendo uma crítica ao tempo que perdem em seus deslocamentos e dando informações de interesse público — pondera ele.

Professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal da Bahia e pesquisador da cibercultura, André Lemos critica o narcisismo digital, mas relativiza a perda de privacidade. Usuário do Foursquare, sua estratégia não é revelar onde está, mas por onde passou.

— Não precisamos pensar a privacidade em seus extremos: ou a garantia total ou a perda total. Essas redes geram a possibilidade de produção de vínculos sociais. Temos que negociar a privacidade para ampliarmos nosso capital social. Hoje posso revelar onde estou, amanhã posso não dizer.

Para ele, o risco da perda de privacidade está onde os usuários não enxergam. O professor lembra que faz parte dessas redes rastrear a navegação dos usuários para coletar dados e traçar perfis:

— Esses dados podem ser usados contra o usuário. As pessoas deveriam ter direito a ser gestoras de suas próprias informações.

Uma forma de monitoramento voluntário

Organizador do livro “Web 2.0: participação e vigilância na era da comunicação distribuída” (Mauad), o professor Henrique Antoun, da Escola de Comunicação da UFRJ, faz coro:

— Essas redes se interconectam. Do ponto de vista do negócio, estão extraindo padrões de comportamento.

Além dos conceitos de público e privado, ele lembra que o de vigilância também mudou. Não existe mais a sociedade descrita pelo filósofo francês Michel Foucault, onde o vigiar estava relacionado à punição em instituições como prisões e escolas.

— As empresas e o Estado inventam diversas maneiras de monitoramento. As melhores são as voluntárias, como as contas de e-mail e o Foursquare, que ainda acopla oportunidades. A questão é perguntar se isso é vigilância. A antiga tinha mecanismo de punição. A atual tem um sistema de recompensa: você ganha descontos, prêmios, vira uma celebridade por cinco minutos — critica.

Um outro viés da questão é a segurança física. “Agora, os ladrões têm sua própria rede social com georreferenciamento”, afirmou o respeitado blog de tecnologia Techcrunch a propósito do lançamento do site Please Rob Me, em fevereiro deste ano. Criado para alertar os usuários das redes sociais que usam GPS sobre os riscos que correm ao revelarem sua localização na web, o projeto acabou sendo bombardeado por grande parte da mídia que cobre tecnologia. O site revelava em tempo real os chek-ins dados fora de casa por usuários de diversas redes sociais. A ideia era alertar que, se não estavam em casa, poderiam ser roubados. Além de exibir os check-ins online, o site mandava a seguinte mensagem aos usuários do Twitter: “Oi , você sabe que o mundo inteiro pode ver sua localização via Twitter?” E assinava: “#pleaserobme.com”

A intenção era mostrar com humor como o usuário estava se expondo. O Techcrunch, apesar das críticas, elogiava o fato de o site alertar para a falta de privacidade dos usuários destas redes. Os pais do projeto aparentemente o abandonaram. O site ainda está no ar, com sua declaração de propósito. Porém, não informa mais os check-ins de usuários quando estão fora de casa e relaciona links de comentários que, segundo seus criadores, souberam interpretar seus objetivos. No texto, eles se dizem satisfeitos por terem chamado atenção para o tema e dizem que ainda estão estudando um destino para o projeto.

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