Onde os fracos não têm vez

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Dois filmes me perturbaram muito quando os assisti pela primeira vez: “Onde os fracos não têm vez” (foto), dos irmãos Coen, e “Ensaio sobre a cegueira”, de Fernando Meirelles, baseado no livro homônimo de José Saramago. As duas produções revelam a força da natureza exercendo o poder dos mais fortes sobre os mais fracos, cumprindo, em partes, as doutrinas darwinistas. No primeiro momento, eu odiei os dois filmes. Acostumados com os happy and norte-americanos, às vezes, não conseguimos alcançar a realidade vigente, retratada através das artes.

Em Onde os fracos não têm vez, Javier Bardem faz o papel de um assassino psicopata que mata as pessoas com um balão de oxigênio. Ao contrário dos outros filmes, é o assassino que se sobressai ao “herói” do filme, que se torna um mero coadjuvante. Bardem mata todos em seu caminho e acaba escapando para o desagrado de seus espectadores. Em Ensaio sobre a cegueira, um surto de cegueira cai sobre o mundo e apenas uma mulher, Julianne Moore, consegue ver, embora não revele a ninguém. A produção que segue a risca os escritos do português Saramago, mostra uma humanidade impune que por não está vendo o que se passa a seu redor, sai cometendo barbaridades, como por exemplo, o marido de Moore, que transa com outra em sua frente. Incomoda vê-la presenciar e não reagir nem durante nem depois.

Pior que isso, é quando Gael Garcia Bernal, fazendo o papel de um dos acometidos pela cegueira, vendo o desespero do povo, começa a liderá-los. Ao sentir o poder que eclode em suas mãos, ele monta um grupo com outros autocratas e passa a comandar e a reprimir os demais, chegando ao absurdo de estuprar as mulheres, incluindo a personagem de Julianne Moore que se deixa violentar mesmo podendo ver. Essa personagem tem duas funções nesta obra: a primeira é nos permitir ver o que se passa na diegese do filme, depois mostrar que mesmo os que vêem se deixam dominar pelos que se fazem mais fortes.
Estes dois filmes revelam muito do que está acontecendo no Brasil hoje. A Primavera Tropical, como chamou um economista no jornal The New York Times, em referência a Primavera Árabe, começou a mudar o país. O povo nas ruas exigindo mudanças fez diminuir o preço das passagens de ônibus, obrigou o Congresso a enterrar a PEC 37, que limitava os poderes do Ministério Público, e a aprovar a distribuição do dinheiro dos royalties futuros para a educação e saúde. Por causa do movimento, o Supremo Tribunal Federal resolveu colocar, em 513 anos, um deputado na cadeia. Natan Donadon (PMDB/RO) roubou 58 milhões da Assembleia Legislativa de seu estado em 1990 e estava condenado desde 2010.

Mais que isso, a força do povo obrigou o governo a chamar uma constituinte, que só não acontecerá por motivos ainda não explicados. Mesmo assim, está discutindo a realização de um plebiscito para realizar uma mudança que é prometida desde sempre: a reforma política. Por traz, alguns Bardems e Garcias estão tentando evitar essas mudanças, mas só acontecerá se novamente, deixarmos que a minoria seja mais forte que a maioria, ou se permitirmos que a cegueira novamente nos impeça de ver o óbvio.

Filho de Apodi/RN é Jornalista, assessor de imprensa e eventos do Instituto do Cérebro da UFRN. Membro do coletivo independente Repórter de Rua, articulista no Jornal de Fato (www.defato.com) e organizador da Revista Cruviana (www.revistacruviana.blogspot.com).rinas & Urubus (www.aspirinasurubus.blogspot.com). [ Ver todos os artigos ]

Comments

There is 1 comment for this article
  1. Pia Torres 2 de Dezembro de 2014 15:50

    Ele é maravilhoso, certamente os irmãos Coen conseguiram uma adaptação muito fiel, mas com este filme, há um paradoxo na sua construção na relação entre forma e substância que faz com que parece evidente fita muito simples para o seu enredo, que parece que não diz nada e até mesmo a sua história é um pouco confuso, mas não por isso se torna uma obra-prima que gere a linguagem cinematográfica com perfeição. Além do elenco é de luxo, Tommy Lee Jones, Javier Bardem e Kelly Macdonald, que era digno de prêmio SAG por sua grande desepemeño neste filme.

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