Opinião abortada

Por Sergio Vilar

Estou realmente surpreso com as opiniões favoráveis ao aborto, sem nenhuma manifestação contrária. Pensei – e nem sei se penso mais – que a maioria ainda fosse contra. Mais interessante e salutar é que são argumentos femininos. Isso é bom e talvez realce novos tempos.

Vou apenas enfatizar mais alguma coisa e me explicar melhor pra Marina. Primeiro, nunca insinuei que você estaria posando de vítima. Achei muito bacana seu relato, embora eu não tenha percebido essa “coragem” ressaltada por outros. Escrever sob o escudo do codinome camufla o medo. E isso é perfeitamente compreensível em casos delicados como esses.

Quanto à informação da camisinha ou da Aids, tudo bem. À época podia ser menos “propalado”. Mas desconfio que o ciclo menstrual da mulher, não. Em todo caso, você reconhece a irresponsabilidade. Isso, sim, é coragem.

Quanto às justificativas dadas para os três abortos, permita-me, Marina. Não consigo aceitar. Medo de a família do namorado pensar que você estaria dando o golpe do baú? O namorado reclamar da necessidade da camisinha? Problemas com o DIU quando há outras formas de prevenção?

E para ser mais claro, disse no outro texto que os homens têm igual parcela de culpa. Nem mais, nem menos. Pelo na maioria dos casos, como esses três que você relatou. A metáfora da bicicleta serve para ambos. Aprende-se andando e caindo. Mas cair no mesmo buraco três vezes…

E para ser mais prático e menos hipócrita – porque isso todos somos – posso dar um exemplo, sem qualquer nível de comparação – e que talvez sirva pra piadinhas de Tácito em off (rs). Mas acho que serve para reflexão e para evitar minha postura muito certinha, quando também já fui irresponsável, mas procurei compensar meu erro.

Em uma dessas transas que você nunca mais vê a pessoa me disse estar grávida após algumas semanas da nossa única relação. Antes da transa eu perguntei se havia perigo de ela engravidar. Ela disse que não porque fazia poucos dias que acabara de “sangrar”. Na ânsia, na irresponsabilidade, foi sem camisinha. Com medo e arrependido, ainda fiz questão que ela tomasse a pílula. Ela tomou e mesmo assim engravidou.

Eu tinha 20 e poucos. Era estagiário, morava com meus pais e a moça, nem de longe, era a mulher da minha vida. Ela sugeriu o aborto. Eu discordei veementemente, mesmo com um medo horrível da repressão da família e do que viria pela frente. E o pior: fui ler as conseqüências da gravidez sob o efeito da pílula. O bebê corria sério risco de nascer com problemas. Mesmo assim, segui meus princípios, arquei com minha irresponsabilidade. Não podia… Não sei se “matar” seria a palavra certa. Mas condenar uma vida pela culpa alheia. Esse aspecto aparece muito pouco na discussão.

Acho que uma ou duas semanas depois, ela manda uma mensagem pro meu celular. Era coisa de 6h. Dizia que acabara de chegar ao hospital com fortes dores. Corri pra lá. Esperei umas 4 horas para o médico me dar o diagnóstico: aborto espontâneo. Sem hipocrisia, disse pra ela depois: foi melhor assim. Tivesse nascido, seria muito bem aceito, cuidado e amado, tenho certeza. Mas seria filho de pais separados e despreparados pela situação profissional ainda precoce.

Após meu relato, observe: todos os casos postados aqui são sempre fruto das tais irresponsabilidades. No caso do estupro, e de outros também pontuais como a escolha entre o bebê e a mãe, aceito o aborto. Aliás, eu e a lei. Afora casos extras, finco minha posição contra. Como fui contra o twitter até pouco tempo. Hoje, me serve. Talvez mude de opinião quanto ao aborto. Não agora. E nem por um bom tempo.

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