Ordem e progresso

Estava circulando pelos sebos da Avenida Rio Branco, no centro da Cidade Alta, quando encontrei o livro Neve, do Escritor turco Orhan Pamuk (foto), Prêmio Nobel de 2006.No livro, ele conta a história de um poeta e jornalista que volta à sua cidade natal para investigar as mortes de jovens muçulmanas que cometeram suicídio porque (provavelmente) foram obrigadas e não usar o véu em espaços públicos. Na verdade, ele queria mesmo era casar com uma colega de escola de sua juventude.
É uma história trágica que mostra o erro que é misturar política com religião. Além de uma tradição de opressão contra as mulheres (ontem vi no Facebook que jovens iranianas criaram uma campanha contra o uso do véu). Durante a investigação, o poeta descobre que não era bem a proibição do uso do véu o que provocou aquela onda de suicídios. Tinha também o costume de obrigar jovens mulheres a casar com homens velhos e prósperos para ajudar a família.
Mas o que me chamou mais a atenção no livro, foi o atraso em que a Turquia foi lançada no século XX. Isso imediatamente me fez lembrar o Brasil e principalmente o Rio Grande do Norte. Conversando com amigos aqui mesmo na redação da TN, chegamos à conclusão que o Brasil escolheu o caminho do atraso quando resolveu abandonar suas ferrovias para dar toda a sua atenção aos automóveis.
Isso começou lá durante o governo de Juscelino Kubitscheck e chegou até os nossos dias com a a eleição de um metalúrgico, Luis Inácio Lula da Silva, oriundo das fábricas de automóveis do ABC paulista.
Prestem bem atenção na fatalidade do nosso destino. Lula criou uma espécie de religião em que é proibido falar mal dele. Qualquer pessoa que discorde o mínimo que seja de suas ideias é condenada a ser chamada de reaça imediatamente. Reaça é um diminutivo do termo reacionário, que significa aquela pessoa que prefere o atraso ao futuro do socialismo.
Lula promoveu a maior revolução social que este país já viu. Tirou o país da linha de miséria e implantou políticas sociais profundas que fez o país atrair a atenção do mundo.
Mas seu projeto de poder veio junto com uma série de práticas que remontam os primórdios do coronelismo brasileiro. Quando Lula foi deputado federal, ficou conhecido por suas posições radicais em nome da moral e contra a corrupção. Até agora nada foi provado contra ele, nem contra a presidente Dilma, nem mesmo contra José Dirceu, que está preso sem uma prova sequer de seu envolvimento com a corrupção. As pessoas desconfiam que houve um grande desvio de dinheiro para as eleições, mas não há provas até agora.
O Brasil é uma espécie de adolescente enlouquecido e irresponsável. Banca uma Copa do Mundo sem ter um tostão, uma Olimpíada só pela vaidade de poder dizer que fez. O caminho para o tão sonhado lema positivista de Ordem e Progresso foi perdido lá atrás nas brumas da história.
Qualquer pessoa com o mínimo de escolaridade já leu Sérgio Buarque de Holanda e Darcy Ribeiro para saber o quanto nós sonhamos em ser um país civilizado. Mas esses projetos não deram certo, meus amigos. Estamos patinando para sair do Terceiro Mundo (termo ultrapassado depois da queda do Muro de Berlim) faz tempo.
E o nosso pobre Rio Grande do Norte, de tantas belezas naturais, tantas riquezas no seu solo e subsolo amarga o destino de depender apenas do serviço público para sobreviver. Atravessamos décadas escolhendo sempre o caminho errado. Dando asas para a vaidade, a corrupção o ineficiência. No meu romance Cidade dos Reis, traço uma metáfora para essa nossa paixão pela derrota. Mas pouca gente leu.
O meu amigo Tácito Costa, jornalista dos melhores dessa província vaidosa, escreveu em seu site Substantivo Plural que os leitores de livros estão entrando em extinção. Nunca se publicou tanto no Brasil e no Rio Grande do Norte, mas nunca se leu menos.
Alguém precisa escrever um romance como este de Orhan Pamuk, narrando nossa miséria, para talvez acordarmos desse marasmo, mas eu sugiro que se escreva esse livro no aplicativo Whatsapp, porque aí todo mundo vai ler.
Sim, estou escrevendo com raiva, porque sei que o símbolo maior de nossa cultura não é Câmara Cascudo. O símbolo maior da cultura potiguar é o paredão de som.
Eu não sei quem foi o infeliz que inventou essa ideia de transformar simples veículos em potentes trios elétricos. Se eu soubesse iria propor o Prêmio Nobel da Imbecilidade para essa criatura.
A praia de Zumbi, no litoral norte potiguar, amanheceu com as paredes pichadas com frases contra os paredões de som. Eu queria saber quem foi essa alma cidadã que teve essa ideia para lhe dar meus parabéns.
Você não imagina o que é passar o verão na praia ouvindo Pablo, Aviões do Forró e Grafith nas alturas. É a própria imagem do inferno, meus amigos. O carnaval vem aí, mas a polícia ambiental só consegue prender os abusivos na praia de Pirangi.
Outro símbolo de nossa cultura é o carrão bonitão trafegando na areia da praia, enquanto crianças brincam inocentemente na areia. O carro para potiguar de classe média, não é um meio de transporte, é um símbolo sexual. Ele precisa mostrar o quanto ainda é potente.
Quando procurar indícios do nosso atraso, não busque nas teorias sociais. Olhe ao seu redor e veja quem está jogando lixo na rua.
E aí que está o cerne de todo o problema que tanto nos incomoda. Até mesmo a escalda da violência que estamos vivenciando pode estar nesses indícios.
Nós escolhemos a barbárie. Escolhemos o desvio descarado de dinheiro público. Escolhemos dar dinheiro aos banqueiros. Escolhemos dar licenciamento a empreiteiras que envenenam nossos rios. Escolhemos eleger representantes que legislam em interesse próprio. Escolhemos matar nossos índios.
E para completar o quadro, colocar a cereja no bolo, ainda vamos para as ruas pedir a volta da ditadura militar.
Estou falando isso na primeira pessoa para tornar a coisa mais dramática, mas eu não defendo essa porcaria. Eu quero o país dos sonhos de Darcy Ribeiro.
Eu quero o Brasil tomando o rumo do progresso, do desenvolvimento sem custo ambiental. Eu quero o Brasil das ferrovias, da transposição, da energia limpa e renovável, da justiça social. Um país livre dos juros humilhantes, do povo sem dívidas. Eu quero o país dos aposentados com vida digna, dos hospitais públicos com qualidade, do transporte urbano eficiente, da educação de qualidade.
Eu sei, eu sou um sonhador. Mas quem não é?

 

FONTE: TRIBUNA DO NORTE

Jornalista e escritor. [ Ver todos os artigos ]

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