Orquestra Contemporânea de Olinda hoje na UFRN


Figuras lendárias da música cubana pareciam mortos para a música quando foram descobertos ainda vivos em periferias de Havana em 1996 e reunidos em um show mágico intitulado Buena Vista Social Club. A “ressurreição” de Ibrahin Ferrer, Ruben González, Compay Segundo, Eliades Ochoa e companhia produziram um álbum histórico, premiado pelo Grammy e documentado no cinema pelo talento de Win Wenders. Salsas cubanas, boleros e ritmos originados na ilha de Fidel completam as 14 faixas do Cd. Uma verdadeira orquestração de metais e instrumentos percussivos acompanhados por vozes negras-latinas de veteranos que, após a redescoberta, morreram pouco a pouco, como se esperassem apenas aquele momento.

Em um cenário estranhamente parecido às ruas de paralelepípedo ladeiradas de Havana, de casas históricas e paredes emboloradas, foi originado um grupo de doze integrantes e som originalíssimo, já comparado aos lendários cubanos do Buena Vista Social Club. É a Orquestra Contemporânea de Olinda, indicada ao Grammy Latino 2009 com o Cd homônimo de estreia. Esta revelação da música brasileira estará neste sábado no show de encerramento da Cientec e etapa final do Festival Universitário da Canção, na praça cívica do Campus da UFRN. A programação começa às 18h. E o ingresso – que seria pago se o convite feito à produção do Mada fosse aceito – é gratuito.

Apesar da clara influência da musicalidade pernambucana, a Orquestra embala experimentações sonoras mescladas entre a música regional e o atual cenário da world music. A Orquestra Contemporânea de Olinda é mais do que uma reinvenção musical produzida em Pernambuco pós-Mangue Beat. Representa a vitalidade e inventividade da riqueza cultural brasileira. E como o Buena Vista Social Club, em Cuba, reuniu alguns dos músicos mais célebres do cenário pernambucano. Metade advém do Grêmio Musical Henrique Dias – a primeira escola de formação musical de Pernambuco, com mais de 50 anos de existência – e formam uma verdadeira orquestra de frevo. A outra banda responde pelo esboço criativo de composição e pitadas de cultura popular.

Gilu é percussionista reconhecido no Brasil e estrangeiro. Foi ele o fundador do grupo. Tiné é cantor e compositor natural dos solos férteis de Arcoverde, terra do grupo Cordel do Fogo Encantado. Participou de projetos musicais variados. Uma de suas composições – Cobrinha – foi incluída numa coletânea lançada nos Estados Unidos, pelo selo de David Byrne. O sobrenome do rabequeiro, cantor e compositor Maciel Salú denuncia influências íntimas da cultura popular. Ele é filho de mestre Salustiano e tem no maracatu rural, no cavalo marinho e nas cirandas seu alicerce musical. Juliano Holanda também é compositor, multinstrumentista e produtor cultural atuante na cena pernambucana. O tecladista e baixista Hugo Gila e o baterista Raphael Beltrão fecham o núcleo baixo-percussão-bateria – o “coração” da Orquestra.

Disco recebeu indicação para o Grammy

Juntos, estes músicos diferem da referência imposta pela crítica ao Buena Vista na jovialidade, embora a virtuose naexecução de instrumentos variados também impressione. Se a tradição cubana emerge aos tímpanos a cada agudo vociferado por Ibrahin Ferrer, as rabecas, os grooves latinos ou o sotaque nordestinês também impõe a marca de uma música brasileira vanguardista. Os arranjos modernos unidos ao frevo, completam a salada sonora conceituada pela crítica do jornal O Globo como um dos melhores shows de 2008 ao lado de João Gilberto. Não bastasse, os pernambucanos receberam indicação da crítica especializada do jornal norte-americano New York Times.

As vestes de qualquer rótulo musical ficam apertadas no corpo da Orquestra Contemporânea de Olinda. No mínimo, podem sair malamanhados, com uma cueca pop, uma calça afro beat, uma camisa frevo e, para completar o figurino, um chapéu de estilo cosmopolita para além dos mares de Recife. Com esta sonoridade múltipla, conseguem ingresso em festas promovidas em qualquer parte do mundo e ainda chamam atenção pelo colorido e inventividade. E se alguém reparar melhor no caleidoscópio estilístico-cultural dos caras, notará na figuração metafórica de um rapaz corado pelos mares de Recife e híbrido pelas influências de vanguarda da música mundial, uma sandália de rabicho e uma fitinha amarrada na canela escrito: “salve Chico Science”.

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