A orquestra do sapo e a viola do urubu na batida de Ben Jor

Reprodução do quadro O Elefante, de Wendell Well

O frio cortava a pele, em uma noite de janeiro, mês de inverno mais rigoroso em Madri.

Com todos os botões do casaco fechados, eu caminhava olhando para o chão, com o queixo no peito, evitando o vento que batia no rosto e queimava os olhos.

A noite havia sido uma das melhores, lembrando os tempos de Barcelona.

Depois de umas tantas cervejas, passando de bar em bar na Puerta del Sol, resolvi voltar para casa caminhando, ao invés de pegar o metrô.

A noite de Madri é contagiante, especialmente em ‘Sol’ e na Latina, onde vivo.

No meu caminho favorito de volta para casa, escolho sempre ir pela Plaza Mayor, a fim de sentir o clima medieval dos ‘gatos’ de Madri do século XVIII e XIX.

Para ser um ‘gato’ ou uma ‘gata’, é necessário ser madrilenho de nascimento e ter na família três gerações de homens que pularam os muros da cidade depois que os portões se fechavam ou para evitar o pagamento de pedágio para entrar na cidade, em uma das versões para esse apelido.

A outra, historicamente comprovada, regressa no tempo do rei Alfonso VI e da reconquistas de Madri, no ano 1085.

As tropas reais se aproximaram da muralha árabe (Magerit), para reconquistar a cidade.

Um soldado se separou da tropa e começou a escalar a grande muralha que protegia a hoje capital da Espanha.

Subiu rápida e agilmente, utilizando uma adaga para fincar nos buracos entre as pedras.

Naquele dia, Madri foi reconquistada e o processo de reconquista de todo território espanhol durou 770 anos, quando o exército de Isabel de Castilla e Fernando de Aragón conquistaram o reino de Granada e expulsaram os últimos árabes, em 1492.

Desde aquele dia os nascidos na vila de Madri são chamados de “gatos”.

E aquela muralha é a que está abaixo da catedral de Almudena.

Na versão mais boemia, os que pulavam os muros eram os boêmios que ficavam nas tavernas do centro até a madrugada, e para sair da cidade e voltar para casa não tinham outra possibilidade senão escalar a muralha e voltar para suas residências fora do centro.

O que parecia ser o meu caso.

Sentindo-me um gato, voltando para casa tarde da noite, e bêbado, subi a Calle Mayor em direção a Plaza com suas ruas estreitas e a meia luz, em um clima totalmente convidativo para mais uma saideira.

De madrugada, a Plaza Mayor é um contraste com o que é de dia.

É um deserto murado de apartamentos, restaurantes fechados e escritórios do que seria a Secretaria de Turismo da Comunidade de Madrid.

Alguns mendigos dormem por lá, embaixo dos arcos da entrada do que era o reduto do comércio madrilenho nos séculos passados.

De dia, é o coração da cidade, onde andar em linha reta sem esbarrar com alguém é uma missão quase impossível, com as ruas em formato de artérias que desaguam no Palácio Real e na Catedral de la Almudena ou na Puerta del Sol, na Calle Preciados e em algum lugar improvável.

Em resumo, sair da Plaza Mayor sem direção é ter a certeza que algum lugar interessante será encontrado.

Após caminhar um bom tempo sem conseguir andar em linha reta, cheguei aos pés de Felipe III, onde avistei com surpresa e curiosidade uma tenda amarela com quatro listras vermelhas.

A lona era pequena e baixa.

Na entrada havia um senhor alto, moreno, que usava óculos escuros na ponta do nariz, cabelo ralo aparentando ter mais de 60 anos, mas em boa forma.

Ao me aproximar ele disse: ‘O circo chegou!’

E me fez sinal para entrar…

Fazia anos que não ia ao circo – já nem lembrava da última vez.

Dentro havia uma pequena placa com os seguintes dizeres: ‘Circo mágico surreal’.

Ao entrar vi que a tenda tinha o triplo do tamanho que se via do lado de fora e imaginei que estava delirando.

Só havia um lugar vazio, que parecia esperar por mim, pois, quando sentei, o show começou.

Meio atônito vi um macaco cientista entrar, um urubu que tocava uma flauta e tinha ao lado um violão.

O público se divertia, ria e comia pipoca.

O urubu passou a tocar não somente a flauta, mas também o violão.

Complementando os arranjos do urubu que se desdobrava, entrou uma orquestra de sapo e nesse momento esfreguei os olhos para provar que não delirava.

Na entrada, o senhor de óculos escuros ria copiosamente.

Enquanto o urubu tocava flauta e violão, acompanhado pela orquestra de sapo, entrou uma cabra pedalando uma bicicleta de uma roda só.

A girafa seresteira deu voz a música dos sapos e do urubu, que tocava o violão freneticamente, recordando Jorge Ben Jor…

Os animais terminaram o espetáculo e se retiraram ovacionados pelo público.

Nessa hora chovia pipoca e eu só podia estar sonhando embriagado.

Foram anunciados o anão gigante e a mulher barbada.

Junto entrou o homem avestruz, com suas passadas largas e, morto de timidez, enfiou a cabeça em um buraco.

Foi quando ouvimos uma grande explosão.

Era o homem foguete que entrava em órbita a qualquer hora, dizia o folheto que um garotinho, ao ver minha cara de espanto, me ofereceu.

E quando menos todos esperavam (Suspense!), um leão fugiu da jaula.

O adestrador gritou: ‘calma minha gente que o leão é sem dente’.

Que anedota! Todos riram.

Quando todos olhavam para o leão sem dente, para o anão gigante, o homem avestruz, que decidiu tirar a cabeça do buraco para ver o homem foguete, entrou um mágico que engolia espada e comia fogo, que logo virou elefante e saiu voando para delírio do público que ria da minha estupefação.

Nem Salvador Dalí acreditaria naquilo…

Do meu assombro surgiu o encantamento com a beleza de uma sexy e linda bailarina, vinda diretamente de Paris que dançando ao som da escaldante banda do seu Tião Brilhantina, seduziu todos os homens solteiros e casados presentes, que enquanto olhavam hipnotizados à bailarina parisiense não percebiam que o palhaço Tereré estava roubando suas respectivas mulheres que caiam apaixonadas pela beleza grega do palhaço, cuja a missão era distribuir goiabada e requeijão, e ingressos para domingo que vem, além de anunciar a grande atração.

A grande atração, era uma grande vidente, que tudo sabia, que tudo via e que tudo sentia.

“E agora com vocês, a grande cartomante, a internacional Deise, a mulher do homem que come raio laser”, anunciou o palhaço Tereré e sumiu detrás das cortinas.

Como um passe de mágica o circo estava vazio e todas as atrações já não estavam mais no picadeira.

Em um piscar de olhos, uma grande luz ofuscou os meus.

Quando consegui reabri-los o sol nascia atrás da Puerta del Sol, e eu estava sentado no chão com as costas apoiadas nas grades do monumento a Felipe III, olhando em direção ao céu.

Quando já começava a acreditar que havia dormido e tido um sonho surreal, vi uma nuvem em formato de mágico cuspindo fogo, que logo virou elefante, me sorriu e saiu voando…

P.S. Conto inspirado na música O circo chegou, de Jorge Ben Jor.

Prefere jornais sem governo que ao contrário. Como Bill Shankly, técnico do Liverpool dos anos 1960, acredita que “o futebol não é uma questão de vida ou morte. É muito mais importante que isso”. E no fim só três coisas importam: o amor, a literatura e o futebol. Reside em Madri, onde faz doutorado em Jornalismo na Universidad Complutense de Madrid. [ View all posts ]

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