Orquidário ou relicário?

As orquídeas nunca foram o meu forte. Enquanto a minha Joana cultivava rosas, jasmins e lírios, eu cultuava cactos. Eu era caatingas e descampados e em mim a vegetação chegava a agonizar, só voltando a rebentar graças à sua natureza de fênix. Desde sempre cumpri ritos de secura, aprontei-me toda para a inevitável aridez. Aprendi palavras esturricadas para tecer fala e escrita. A sina das minhas palavras foi e é (cada vez mais) o esforço de romper.

As orquídeas eu conheci no mais tarde. E olhava sua beleza sem aproximar-me, sem ter vontade delas. As orquídeas e o seu veludo eram infensos às minhas mãos e às minhas palavras e eu também não ouvia suas vozes. Eram quiçá as tais “Vozes veladas, veludosas vozes,/Volúpia de violões, vozes veladas…”. Vagavam, talvez, “nos velhos vórtices velozes/dos ventos,vivas, vãs, vulcanizadas.” Ah, mas se Cruz e Souza é pura água e seus versos banham a madrugada, não deixarei hoje de regar as orquídeas.

Essas flores me arrancavam menos suspiros do que os versos de Cruz e Souza, até que, um dia, uma delas entrou na minha vida subitamente, pelas mãos do semeador. Uma florada orquídea branca na ponta de um caule arqueado que, só de estar nas mãos dele, já me fazia olhá-la duas mil vezes e reverenciá-la, pois ela possuía as mãos do homem, o lugar do qual eu queria me apossar. Meu primeiro sentimento real por uma orquídea foi a inveja. E a flor era para mim. O semeador entregou-me uma não-palavra: a orquídea branca. Minha e dele, a orquídea branca era uma não-palavra compartilhada, uma não-palavra em comunhão com as minhas palavras esturricadas. E eu, que estivera pronta para toda aridez, vi-me ali, pasmada diante da floração. Aflorando também, aprendendo que o silêncio demora, que a espera pela floração do silêncio é uma lapidação da alma.

A paixão é de todos os sentimentos o mais indigente. Ai, como é pedinte! A paixão é filha da penúria, mas também é neta da astúcia e, portanto, a paixão é mulheril. Pois feita de paixão eu pedi e ganhei umas não-palavras amadurecidas nos estendedouros da alma: quem ama extasia os sentidos de quem é amado. De paixão pedi as não-palavras atávicas: na tua pele a minha se depura. De paixão eu quis sentir as não-palavras levedadas: em ti se expande o insondável.

Eu não sou orquídea, nem sou silêncio, mas conheci nas não-palavras que me foram dadas um modo a mais de ter pátria, de percorrer funduras e planícies. Conheci nas não-palavras um modo de floração. As orquídeas afloraram nos meus escritos, entrelinhas silenciosas sem as quais o escrito vira deserto, contrapontos que equilibram as minhas esturricadas palavras. As orquídeas são o silêncio, esta pátria que me livra do degredo.

Sim, eu cultuo ainda cactos armazenadores de memórias e delicadezas obscuras, cactos armazenadores de palavras, mas as orquídeas adoçam a minha boca porque são o mel do semeador. Palavras as orquídeas não são, nem retém palavras, mas (que o diga o príncipe da Dinamarca); palavras, palavras, palavras: úmidas ou esturricadas, nem sempre a gente precisa delas.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

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