Os 50 anos da morte de Hemingway, mestre do conto

Por Álvaro Costa e Silva, especial para O Globo

Passados 50 anos da sua morte, quase mais ninguém duvida: Hemingway era melhor contista do que romancista. Talvez por isso o único livro dele a sair este ano no Brasil, para lembrar a data redonda, tenha sido uma coletânea de histórias curtas, “As Neves do Kilimanjaro e outros contos” (BestBolso, 176 páginas, R$ 14,90). Dela fazem parte relatos conhecidos: “Cinquenta mil”, “Os assassinos”, “O lutador”, além daquele que intitula o volume. Outros, sempre lembrados, ficaram de fora: “Montanhas como elefantes brancos”, “Um dia de espera”, “O grande e generoso rio”, “Gato na chuva”, “Um lugar limpo e bem iluminado”, “Um idílio nos Alpes”.

(No post abaixo, escritores brasileiros falam sobre a influência de Hemingway)

Que o escritor se dava melhor no espaço curto e concentrado era uma certeza antiga. Pelo menos para Dorothy Parker, também exímia contista que, em sua coluna de resenhas literárias na revista “The New Yorker”, escreveu que não sabia onde encontrar um livro melhor que “Men without women”, “uma obra verdadeiramente magnífica”. Como se sabe, Dorothy tinha uma língua do capeta e não costumava rasgar seda diante dos coleguinhas. Mas os elogios dela foram ainda mais longe: “Os assassinos” era um dos cinco melhores contos americanos de todos os tempos; na chave de ouro, ela afirmava que “Hemingway se ergue como um gênio, porque tem um infalível senso de escolha”.

Dorothy Parker disse isso no calor da hora, em 1927, quando “Men without women”, o segundo livro de contos publicado por Ernest Hemingway, tinha acabado de sair. Seu nome tornara-se conhecido um ano antes, com o estouro comercial de “O sol também se levanta”, um desses raros romances capazes de influenciar a maneira como as pessoas se comportavam e falavam, algo hoje inimaginável. De um dia para outro, começaram a aparecer jovens cujo modelo era a personagem Lady Brett Ashley, um chiquê só e sexualmente liberada, ou, pelo lado masculino, Jake Barnes, durão na aparência, estoico, de poucas palavras, mas, no fundo, um sentimental.

“Penso que Hemingway fez algumas verdadeiras descobertas sobre o uso da linguagem em seu primeiro romance. Eu admirava o modo como ele fazia os bêbados falarem”, comentou o romancista Evelyn Waugh, dono de humor tão sulfúrico quanto o de Dorothy Parker, a qual não tinha “O sol também se levanta” na mesma alta conta em que punha os contos. No artigo da “The New Yorker” ela revelava que “jamais fiquei tão farta com um livro em toda a minha vida”.

“Os assassinos” – o conto que Dorothy canoniza – é um ponto luminoso na coletânea que acaba de ser editada. Mas surge intitulado, na tradução de José J. Veiga, como “Os pistoleiros” (no original é “The Killers”).

Não é uma história passada no Velho Oeste. Está mais para os tempos da Lei Seca: dois matadores de Chicago, Al e Max, entram numa lanchonete. Um pede presunto com ovos, o outro bacon com ovos, mas o que querem mesmo é a cabeça de Ole Andreson, um velho pugilista de origem sueca, que vive escondido na pequena cidade. O leitor não sabe por que Ole está sendo caçado, mas pouco importa: avisado da presença de Al e Max, ele desiste de fugir. Uma história banal e brutal, que tem no diálogo a base da sua progressão dramática.

A desorientação a respeito da personagem é tônica: por que Ole Andreson estava marcado para morrer? Na certa, aprontara alguma com gângsteres de Chicago, mas isso é o leitor que tem de deduzir. O truque é parte da teoria estética de Hemingway, que costumava suprimir os trechos iniciais de seus contos, e só então dá-los como prontos.

Fizera o mesmo com “O sol também se levanta”, depois que Scott Fitzgerald sobriamente recomendara certo número de cortes internos nos primeiros capítulos do manuscrito. Hemingway resolveu na hora eliminar as primeiras 15 páginas datilografadas, toda a biografia de Brett Ashley e a autobiografia do narrador, Jack Barnes, que podiam ser deduzidas na sequência do romance.

“Os assassinos” costuma ser apontado como marco de surgimento da escola “hard-boiled”, americana por excelência, com o mesmo peso que “Os crimes da Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, teve para a composição do romance de enigma, de trato inglês.

De fato, a situação violenta coincide, os diálogos curtos e o uso do coloquial são os mesmos, mas aqui um desmancha-prazeres deve entrar em cena. Hemingway escreveu “Os assassinos” na primavera de 1926, em Madri, numa jornada especialmente produtiva, pois concluiu também no mesmo dia o conto “Dez índios”. A primeira história do Continental Op – o detetive anônimo criado por Dashiell Hammet com base nas próprias experiências profissionais – apareceu no dia 1º de outubro de 1923, na revista “Black Mask”. Uma diferença de quase três corpos – perdão, anos – de Hammett para Hemingway.

Mais do que nas “pulp magazines”, uma possível influência pode ser melhor vista – e ouvida – nas telas, conforme a dúvida de Guillermo Cabrera Infante, que se perguntava se “os personagens de Hemingway falavam como atores de cinema ou se os atores de cinema falavam como personagens de Hemingway”. Ora, “O sol também se levanta”, com sua linguagem de bebum, foi publicado em 1926. Logo no ano seguinte estreou o filme “O cantor de jazz”, inaugurando a fase sonora e o consequente êxodo de escritores de papel, quase todos também chegados num trago, para Hollywood.

Não à toa, “Os assassinos” ganhou duas versões, com direção de Robert Siodmak (1946) e Donald Siegel (1964). A primeira delas, estrelando Ava Gardner e Burt Lancaster, é a mais perfeita adaptação de uma obra de Hemingway, e a única que o próprio conseguia assistir até o segundo rolo, antes de cair no sono.

Comments

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  1. Jóis Alberto 2 de Janeiro de 2012 9:42

    Excelente resenha, ótima crítica literária. Não é possível que ‘crítico literário’, ‘colunista’ ou ‘resenhista’ local não possa fazer o mesmo no jornalismo cultural potiguar. Salvo um ou outro que coloca seu talento exclusivamente a serviço da melhor crítica artística, como por exemplo Nelson Patriota, sempre escrevendo com inteligência, seriedade e credibilidade, considero raro ver esse nível de informação em resenhas ou críticas nas mídias em Natal. Não por incompetência, mas porque infelizmente vários preferem a intriga, a frase de efeito preconceituosa, a intolerância, o cinismo, a maledicência, a infâmia… – ufa!, é grande a quantidade de maldades que se pode praticar nessa atividade, em detrimento do talento…

    E olhe que se trata da análise de um escritor, Hemingway, um clássico, sem dúvidas, porém considerado por alguns como exemplo de média cultura (midcult), para usar essa definição feita por Dwight MacDonald. Se Hemingway é de fato média, alta cultura ou alta literatura é outra questão. O que importa aqui é a elogiável mestria de Álvaro Costa e Silva ao escrever resenha, ou crítica literária, da melhor qualidade e acessível a qualquer leitor de cultura mediana pra cima. Preciso, contudo, conhecer outros textos desse resenhista pra me convencer melhor de suas habilidades como crítico. Mas que essa crítica me causou ótima impressão, disso não tenho dúvidas.

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