Os alicerces da cidade

Por Vladimir Safatle
FOLHA DE SÃO PAULO

Semana passada, escrevi um artigo sobre algumas questões ligadas à música no Brasil contemporâneo. Das acusações suscitadas pelo referido, a mais leve era a de que não entendia nada sobre música, a mais cômica era de que eu seria pago pela grande imprensa para desqualificar a produção musical nacional. Entre elas, circulavam alguns impropérios de douta finesse, dignos do Grande Dicionário Arranca-Rabo da Língua Portuguesa ou do best-seller “UFC Acadêmico: Quebrando o Pescoço do Inimigo”, sem descuidar de notas de rodapé e citações. Claro que não poderiam também faltar metralhadas classicamente mobilizadas desde a época que stalinistas atiravam no “formalista” Vladimir Maiakóvski a fim de desqualificar a “dificuldade” de sua poesia. Ou seja, para minha não surpresa, estavam lá os velhos “elitista”, “ultrapassado”, “desconectado da verdadeira pulsação febril das massas”. Faltou pouco para não aparecer um “inimigo da classe trabalhadora e de suas manifestações”, mas atualmente “adorniano” já basta para tanto.

Dentre as críticas que chegaram até mim, algumas eram realmente interessantes e diziam respeito às modalidades de circulação da produção musical atual. A estas, só tenho a agradecer. Mas a maioria, infelizmente, era contra o que simplesmente não falei nem pensaria em defender. Ou seja, tudo o que se pode dizer neste caso é: desculpem-me, amigos, mas creio que a carta foi postada com o endereço errado. Com sangue nos olhos, não se consegue ler nem texto de jornal.

Em momento algum foi questão de afirmar que a produção musical brasileira atual seria desprovida de qualidade em relação aos “grandes padrões do passado” ou a qualquer coisa que o valha. Nem procurei reeditar o simplismo da saga erudito X popular. Gostaria simplesmente de lembrar o que realmente escrevi: “A despeito de experiências musicais inovadoras nestas últimas décadas [Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Criolo, só para ficar em alguns entre tantos], é certo que elas conseguiram ser deslocadas para as margens [ou seja, o problema era de circulação, não de produção], deixando o centro da circulação completamente tomado por uma produção que louva a simplicidade formal, a estereotipia dos afetos, a segurança do já visto, isto quando não é a pura louvação da inserção social conformada e conformista.” Antes, eu dissera no mesmo artigo que o Brasil fora um dos poucos países capazes de extrair genialidade de um sistema musical largamente baseado na forma-canção.

Pode-se dizer que essa noção de “margem” e “centro” seria tributária de um modelo de difusão da produção cultural anterior ao advento das redes sociais. Esse é um argumento válido, seria necessário discuti-lo com calma, o que não é possível no espaço de um artigo de jornal, mas temo que ele seja muito mais um “wishful thinking” do que realidade. Vários são os estudos de mídia a mostrar que o “consumo” de música continua centralizado em dinâmicas brutalmente oligopolistas, repetindo um padrão de radicalização do monopólio típico de todos os setores atuais da economia.

Agora, há algo que realmente falei e que repetiria com todas as letras. Há uma incrível covardia crítica em relação à miséria musical do que circula de forma maciça nesta última década. Citei o funk e o sertanejo universitário por serem os casos mais evidentes. Creio que parte de tal covardia vem do fato de que, mesmo que esta produção seja ouvida em qualquer festa da elite brasileira, mesmo que ela seja o motor da produção da indústria cultural brasileira, que ela embale sem tensão o mundo da integração absoluta, alguns ainda irão querer lê-la como expressão da “espontaneidade popular”. Bem, para estes que acham não fazer sentido qualquer crítica da forma musical, que acham que qualquer análise crítica da produção cultural é mistificação de classe, teria muito a dizer, mas insistiria em um ponto: vocês, no fundo, não acreditam que existam julgamentos estéticos, apenas se acomodam a análises sociológicas. Vocês se importam pouco com música, apenas acreditam que as “manifestações musicais da classe trabalhadora” ou congêneres devam ser respeitadas em quaisquer circunstâncias. Vocês sequer se perguntam quão estranho é sua noção de “classe trabalhadora” acomodar-se tão bem à condição de figurante de programa dominical de variedades da Rede Globo. Talvez isso mostre como, para alguns, a ideia de uma arte revolucionária só poder ser feita com uma forma revolucionária perdeu todo o sentido.

Platão dizia: “Não se abalam os gêneros musicais sem se abalarem os alicerces da cidade”. O tipo de reação canina ao que escrevi só demonstra que Platão sabia do que falava. Muitos, sem saber, querem deixar os alicerces onde eles sempre estiveram.

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