[Fotografia] Os Amantes Líquidos

A obra “Os Amantes”, de René Magritte, em sua expressividade que sobrevive ao tempo, ganha novos significados enviesando por sentidos contemporâneos aderentes à sua mensagem original.

O desconforto claustrofóbico suscitado pela obra nos concede de maneira imediata a primeira impressão da profundidade semântica com a qual a imagem se arraiga no nosso cotidiano.

O toque impedido pelos panos, responsáveis também por enclausurar a expressão na ocultação dos rostos, denota um aspecto que muitas vezes parece orgânico à vivência contemporânea: a liquidez das relações.

Bauman já explicitara que uma sociedade que passou a viver em redes sociais como a nossa, e não mais em comunidade, se organiza por duas atividades: conectar e desconectar.

Os laços que se formam são mais “frágeis” dada uma certa necessidade  criada pelo imaginário social  de desapego funcional, fluidez de relações que vai servir a um determinado objetivo.

Passa a ser aversivo se ligar às pessoas é muito mais vantajoso apenas se conectar, visto que é mais fácil se desconectar do que se desligar de alguém.

Assim, desde muito cedo na relação colocasse panos, para se proteger do outro e de si mesmo pela relação com o outro. Mas a que objetivo serve essa liquidez, essa facilidade de desconexão? Esses Os Amantes Líquidos de Magritte ressignificados pela infeliz observação da dinâmica social da pós modernidade, nos dão o que pensar.

No cotidiano, o gozo individual é privilegiado em detrimento do que é coletivo. A sociedade passa a desprezar tudo aquilo que funciona como entrave para a autorrealização do ego.

Fragilidade de sentimentos

Assim, torna-se não somente inútil como também aversivo buscar entender a complexidade do outro. A alteridade é um refugo da sociabilidade, e é dessa forma que se pauta um favorecimento das formas superficiais de relacionamento. Ou seja, o outro, em outras palavras, não me serve para nada.

Durkheim já mostrara, há mais de um século, que a divisão do trabalho privilegia a autonomia das consciências individuais em detrimento da consciência coletiva que agrega valores, normas, expectativas e simbolismo decorrentes de uma aglutinação dessas individualidades.

O coletivo, enquanto uma realidade do momento histórico e cultural, funciona como uma espécie de realidade compartilhada, e a negligência desse compartilhamento  em favor dos mundos subjetivos individuais fragiliza os sentimentos de pertencimento e empatia, favorecendo uma visão pragmática das relações, cujos valores passam a ser definidos pela utilidade, não pela ligação que se estabelece com o outro.

Uma vez que não se sentem compelidos a aderir à norma, ao coletivo, o homem  cuja natureza se posiciona entre o individual (destoante) e o social (convergente) o ser humano se torna mesquinho, introspectivo, reverente do eu, de autovalorização exacerbada, que arbitra as próprias normas: anômico.

Os Amantes Líquidos:Autônomos autômatos

Esse ambiente compartimentalizado nas individualidades provoca a emergência do que há de mais egoísta e egocêntrico que se pode esperar da natureza humana.

Se você não serve para meu gozo, você não me serve para coisa alguma. O gozo é o imperativo. O gozo é meu superego, minha norma. A qualidade se prostra em favor da quantidade.

Na esteira desse movimento hedônico, centrado em si mesmo, que se utiliza das relações como ferramenta para a autorrealização, podemos pensar na crueldade das pessoas nos servem suas costas como degraus para a satisfação própria.

A sociabilidade é uma realização cega dos objetivos individuais. E aí o inferno são os outros, pois quando param de nos servir, não podemos carregálos, não podemos permitir que sejam empecilhos para as realizações (não é mesmo?).

Por isso, ausentamos o contato, esterilizamos as relações com véus que nos escondem a alma e que, melhor ainda, escondem a alma do outro para que eu não a sinta partir. Não nos ligamos, nos conectamos atraídos pela facilidade de desconectar, esvaziados de pessoalidade, de humanidade.

Tencionamos ser autônomos nos tornando autômatos, anômalos anômicos, hedônicos hediondos, firmes na nossa liberdade de nos enclausurar dentro de nós mesmos, de se cegar pro alheio, pro mundo e pra vida que acontece fora da nossa pele, Assim, tornamonos Amantes do Eu, cegos, solipsistas, individuais, absurdos… surreais.

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Comments

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  1. Carla Nogueira 10 de Maio de 2019 13:07

    “a negligência desse compartilhamento em favor dos mundos subjetivos individuais fragiliza os sentimentos de pertencimento e empatia, favorecendo uma visão pragmática das relações, cujos valores passam a ser definidos pela utilidade, não pela ligação que se estabelece com o outro.” Cruel realidade da liquidez nos sentimentos, esse medo de apego que hoje se tem e se ele vem é apenas para satisfação própria, nunca pela alegria de compartilhar com o outro os prazeres e as afinidades. As pessoas estão cada vez mais secas e vivendo as suas rotinas e nas suas bolhas com medo de sentir a vida vibrando por amor para não serem “incomodados” por esse sentimento e nem tão pouco se responsabilizar afetivamente com outra pessoa. É triste a falta de coragem pra estabelecer relações e isso é péssimo pra vida e pro mundo.

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