Os ares da tua hora

Jairo Lima

lentíssimas avencas
(respiram) águas.
À flor das águas o gume do navio
ondas………………………………………….dálias
lentas………………………………………….águas
+ um lírio
afogado em sal
dia de tarde cheia
(ontem ouviu-se o corte da lâmina
no leito do vidro
quando a palavra louça se ofereceu a Ti num turíbulo incendiado,
quando o pássaro disse Sim com o gume de suas asas
e o lã de suas penas molhadas,
quando era já tarde cheia, luna plena, ………………quase setembro)
o machado afia o seu gume no gume da água
lentíssimo gelo alarga o branco lã.
ontem Memória envolveu seu relato em transparente véu
e assim o dito restou exato em cada sílaba
e nos ares sibilantes de suas flautas
o Sim resvalou em fuga cromática
e se prendeu nos acordes incertos
que se tresmalhavam já na fronteira do silêncio
antes eras em mar
e no remanso da página a palavra pensa e extrai as palavras que se cravam na pele do poema
ao dizeres Pássaro
alteia a voz nas palavras dos olhos e das asas
e diz, com o acento mais dramático,
do abismo que se mede entre o Pouso e o Alto
e convoca palavras ferozes para dizer o grito de amanhecer
e todas as palavras que não digam coisas como água e pedra
afasta-as de Ti.

Comentários

There is 1 comment for this article
  1. François Silvestre 19 de maio de 2010 9:56

    Belíssimo!

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