‘Os artistas não precisam mais de nós’, afirma crítico

Por André Barcinski
FSP

Neil Strauss lança livro de entrevistas e comenta as mudanças na música. ‘Everyone Loves You When You’re Dead’ reúne trechos de conversas com Lady Gaga, Madonna e outros

Neil Strauss, 38, é um dos grandes jornalistas musicais da atualidade. Colaborador da revista “Rolling Stone” e do jornal “The New York Times”, lançou biografias perturbadoras de Marilyn Manson, Mötley Crüe e Dave Navarro (Jane’s Addiction).

É autor também de “O Jogo – A Bíblia da Sedução”, lançado no Brasil e um best-seller internacional, em que narra suas aventuras numa sociedade secreta de conquistadores profissionais.

Seu livro mais recente é “Everyone Loves You When You’re Dead” (em tradução literal, “Todo Mundo Ama Você Quando Você Está Morto”), coletânea de trechos de mais de 200 de suas entrevistas, com artistas como Madonna, Tom Cruise e Lady Gaga.

Folha – Você acha que o tipo de relacionamento entre artistas e imprensa mudou muito desde que você começou a trabalhar como crítico musical?

Neil Strauss – Sem dúvida. A internet mudou tudo. Antigamente, os artistas não tinham uma via direta para se comunicar com seu público, a não ser a imprensa. E eles faziam de tudo -tudo mesmo- para tentar chegar até o público. Hoje, com Twitter e sites, os artistas já podem se comunicar diretamente com os fãs, e isso mudou totalmente a relação com a mídia. Basicamente, eles não precisam mais de nós.

E como isso impactou a qualidade da cobertura musical?

Impactou muito. Hoje os artistas têm um maior controle sobre as informações, e isso é péssimo. Prejudica inclusive os fãs. A qualidade da cobertura piorou muito. Hoje, um jornalista tem, quando muito, 20 ou 30 minutos com um artista, e não dá para descobrir muito sobre ele com tão pouco acesso.

Como você faz?

Eu tento, de alguma forma, estabelecer uma conexão com o artista. Deu certo com Lady Gaga, por exemplo. Eu tinha uma entrevista marcada com ela para depois de um show. Mas ela gostou de nossa conversa e me convidou para voltar no dia seguinte.

Quem eram seus ídolos na crítica musical?

Gostava muito de Richard Meltzer e Gerard Cosloy. Gostava muito também de Paul Nelson (veterano crítico da “Rolling Stone” que teve um fim trágico, morrendo abandonado e sozinho -aparentemente, de fome- em um muquifo em Nova York). Mas eu sempre gostei muito também de ficção, de autores como Joe Fante, Jim Carroll, Jerzy Kozinski e Nabokov.

Seus livros misturam crítica musical e reportagem, você não concorda?

Sem dúvida. Nunca me vi muito como um crítico, sempre tentei fazer livros ou escrever histórias sobre pessoas interessantes. Para mim, o mais importante é tentar descobrir quem são, no fundo, as pessoas que fazem a música. Quando lancei “Everyone Loves You When You’re Dead”, fiz um desafio aos leitores de meu blog: se alguém não gostasse do livro, era só mandar a capa pelo correio que eu devolveria o dinheiro. Só dois leitores pediram a grana de volta.

Outra característica de seus livros é uma predileção por personagens mais “outsiders”, como Mötley Crüe, Marilyn Manson etc.

Sim. Os personagens mais “dark” me parecem os mais interessantes. Uma vez eu estava entrevistando o Prince e ele me disse: “Mas você só gosta do lado escuro! O que há de errado com o lado claro e leve da vida?” E começou uma digressão estranha sobre filosofia e religião, falando da necessidade de purificar o espírito…

O que é, por si só, uma coisa bem “dark” e sombria, não?

[Rindo] Sem dúvida. Prince não é, exatamente, um raio de sol…

Em todos esses seus anos entrevistando as pessoas mais diferentes, houve algum artista que realmente te impressionou pela loucura?

Jerry Lee Lewis, sem dúvida. É um verdadeiro psicopata. Tive a impressão de que ele poderia fazer qualquer coisa a qualquer momento.

Você esteve no Brasil cobrindo a cena de baile funk, inclusive citou o DJ Marlboro em seu livro.

Sim, estive no Brasil algumas vezes, entrevistei Caetano Veloso e seu filho Moreno. E conheci também o Karnak, gosto muito da banda e por pouco não incluí trechos da entrevista no livro.

EVERYONE LOVES YOU WHEN YOU’RE DEAD – JOURNEYS INTO FAME AND MADNESS
AUTOR Neil Strauss
EDITORA It Books
QUANTO US$ 17 (cerca de R$ 31; 544 págs.)

Raio-X: Neil Strauss

VIDA

Nasceu nos EUA em 13 de outubro de 1973

Foi repórter e crítico de “Village Voice”, “The New York Times” e “Rolling Stone”

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