Os aruás da lagoa do Carnaubal

Por François Silvestre

O pequeno sítio, próximo da grota do Cumbe, no Martins, servia de refúgio para a reclusão do Pe. Alexandrino Suassuna.

Ordenara-se em São Paulo, cuja liturgia deu-se na Igreja de Santa Ifigênia. Fora vigário de Serra Talhada e Reitor do Seminário de Pesqueira, em Pernambuco. Voltando ao Rio grande do Norte assumiu várias paróquias. Campo Grande, Caraúbas, Lages, Goianinha e Macaíba.
Ainda jovem, largou a vida sacerdotal e enfurnou-se cá na serra. Criava três meninos. Oziel, de Macaíba; Pedro, de Santa Maria e eu. Dos três, eu era o único parente. Pois era ele irmão da minha mãe.

Neste sítio vivi meus primeiros oito anos. Até sua morte, de infarto, aos quarenta e nove; na sombra de uma touceira de Açaí, enquanto cortava maniva para as vacas de leite.

A principal sala da casa era sua biblioteca, onde seus livros se misturavam com meus brinquedos. Bolas, baladeiras e carrinhos nas lombadas de Thomaz de Aquino, Santo Agostinho, Camões, Bocage, Goethe, Theilhard de Chardin, Fustel de Coulanges, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Ovídio, Dante, Virgílio, Platão, Aristóteles… Gente que ainda hoje me parece não ser gente.
Além do sítio, ele possuía duas propriedades no sertão. Uma banda de Cajuais e a fazenda Carnaubal, onde criava gado, ovelhas e bodes.

Guardo do Carnaubal lembranças dispersas. Mais das viagens. Íamos juntos, Papaim e eu. Em Petróleo, um enorme cavalo pampo. De ancas largas, tinha uma baita garupa. Ele ainda a deixava maior, ao por a sela mais para frente. Punha uns coxins, deixando tudo muito confortável. Inventou umas cilhas de sola que me seguravam à parte traseira da sela.

Oziel e Pedro, já adolescentes, tinham montarias próprias. Descíamos pela ladeira do Cumbe; passávamos pelo Sanharão, Viçosa, Pedras Ferradas, até o Carnaubal.

O casal Paulo e Sergina tomava conta da fazenda. Lembro-me dela com a barriga enorme, de cujo parto veio a falecer. Papaim trouxe Catarina, mãe de Paulo, para ocupar seu lugar. De Catarina nunca se viu a cabeça. Sempre envolta numa espécie de lenço, que lhe cobria até as orelhas.

Havia muita conversa sobre isso. Uns diziam que ela ficara precocemente de cabelos brancos. Outros, que seus pais lhe mudaram o nome após o batizado; o que provocara a queda completa dos cabelos. Certa vez lhe perguntei: “Papaim, é verdade que Catarina perdeu os cabelos depois do batismo”?

Olhou-me de cara feia. Depois, riu e respondeu: “Você quanto mais cresce mais besta fica”.
A lagoa do Carnaubal espelhava o sol, empurrando pequenas ondas, que serenamente espumavam franjas brancas a banhar os coloridos aruás. Deles eu pinto a memória, na forma de casas ocas onde habitaram lesmas.

De lá pra cá, o que mudou? Parei de crescer, mas continuo cada vez mais besta. Té mais.

Ex-Presidente da Fundação José Augusto. Jornalista. Escritor. Escreveu, entre outros, A Pátria não é Ninguém, As alças de Agave, Remanso da Piracema e Esmeralda – crime no santuário do Lima. [ Ver todos os artigos ]

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