Os caídos lutaram por liberdades que jamais desfrutaram

Por Alberto Dines
OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Não agravar tensões, desativar impasses, proteger a República, consolidar o Estado de Direito – estas devem ter sido as razões que levaram a imprensa a se comportar de forma tão comedida nas vésperas do Dia Internacional dos Direitos Humanos, quando a Comissão Nacional da Verdade (CNV) entregar o relatório sobre as violências cometidas pela ditadura militar contra aqueles que a ela resistiram.

Sabiamente, o coordenador da CNV, Pedro Dallari, foi liberando informações de forma gradual de modo a evitar grandes comoções no dia da entrega do relatório à presidente Dilma Rousseff. A mídia não aproveitou – ou aproveitou pouco – o acervo de revelações e a mina de brutalidades. O sinal verde só foi aceso no fim de semana anterior. E como sempre acontece pode ser logo apagado. Para economizar energia e aliviar culpas.

O zelo da mídia em não provocar o ressentimento castrense tem algo de hipócrita: para preservar a governabilidade e evitar sacolejos institucionais, mais prudente seria encerrar definitivamente a disputa eleitoral e tirar de circulação as provocações sobre impeachments.

Para proteger a República nada mais eficaz do que manter os seus ritos, e para evitar a repetição das barbaridades nada melhor do que conhecê-las integralmente. A Anistia não foi pactuada como uma Lei do Silêncio; a busca da verdade – mesmo sem a complementação processual – foi a alternativa encontrada nos anos 1970 para apressar a redemocratização e evitar o revanchismo.

Histórias e memórias

Torturadores, estupradores, assassinos e seus mandantes certamente escaparão de castigos e penas por força do pacto que os perdoou antes mesmo de conhecida plenamente a extensão de seus crimes. Em compensação, deveriam carregar para sempre o relato dos horrores que praticaram. Esta parte do pacto é de responsabilidade da sociedade e daqueles que falam em seu nome. A imprensa calou durante 17 dos 21 anos de ditadura, agora precisa soltar a voz para nunca mais perdê-la.

Porém, se o for relato for brando, resignado, cerimonioso, e se a busca da verdade não encontrar uma reverberação equivalente às monstruosidades perpetradas, estaremos sendo duplamente furtados – perdemos o direito de julgar carrascos e de honrar suas vítimas.

A imprensa brasileira não aparece muito bem no filme sobre o golpe e a ditadura. Mas tem condições de reabilitar-se de alguma forma se a busca for perseverada e as verdades perenizadas com devoção.

Os 25 jornalistas caídos na luta contra a ditadura militar merecem a solidariedade dos companheiros. Merecem também a gratidão das entidades, empresas e corporações pelo supremo sacrifício de trocar suas vidas por liberdades que nunca haviam desfrutado.

O panteão aos jornalistas caídos não carece de bronze nem de mármores. Basta recuperar suas palavras, histórias e lembrar suas dignidades.

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