Os caminhos da rua

Havia muitos caminhos da rua. Trilhas que saíam do centro para os arredores da cidade, que começavam depois das ruas de calçamento e seguiam em várias direções, para o Carrasco, para o Fomento, para as Gangorras. Do mesmo jeito, havia mais de um caminho que levava à nossa casa, no Alto da Alegria, onde também ficava o poço do Apodi. Tinha o caminho da craibreira, o caminho das freiras e o caminho de Genésio.

Gente grande como meu pai e meu irmão era muito corajosa. Não tinha medo do escuro, ia e vinha para qualquer lugar por qualquer caminho e a qualquer hora: de dia, de noite e até de madrugada, eles diziam. Mas as crianças, não, elas tinham medo do escuro. Mais medo ainda do escuro dos caminhos da rua.

Por isso, no claro do dia quando a gente ia e vinha por qualquer caminho, era sempre melhor pelo caminho de Genésio, o mais curto.  E quando era noite, também era melhor pelo caminho de Genésio. Porque minha mãe dizia que embora todos os caminhos ficassem mal assombrados à noite, o caminho da caibreira ficava muito mais, o que bastava para que nenhuma criança se aventurasse por lá, fosse a noite de escuro ou de lua. E o caminho das freiras era o mais longo

O caminho de Genésio começava em ladeira e seguia pelo tabuleiro desviando aqui e ali de alguma pedra, entre pequenos arbustos como velames, pega-pinto, pereiro e outros tipos comuns da caatinga. Se a gente estava voltando da rua, era bonito olhar do alto da ladeira para os arredores da cidade, para as casas distantes como a da minha professora Sinhá Nana, perto da estrada de rodagem. A maioria das casas era de taipa, dispostas em desalinho, formando arremedos de ruas sem nomes. Mais bonito, ainda, era se a volta para casa acontecia no final da tarde. Como o caminho tinha por direção o poente não havia como desviar os olhos do espetáculo do entardecer. Nessa hora o sol parecia uma bola vermelha incandescente e descia rápido, como se buscasse agasalho nas folhas escassas das árvores ressequidas do sertão.

O caminho das freiras partia do Instituto Cônego Leão Fernandes, uma grande construção branca vista de quase todos os pontos da cidade. No primeiro andar, na parte de trás, a parede era enfeitada de janelas venezianas que pareciam guardar um olhar para o horizonte à hora do pôr do sol.  Depois que passava por traz da casa do prefeito o caminho das freiras fazia uma curva à direita e seguia na lateral de um extenso carnaubal, cercado de arame farpado. Havia por ali muitos pés de bucha-de-cabacinha e de melão-de-são-caetano que se enroscavam nas cercas como trepadeiras.  Uma e outra, as plantas emprestavam seus coloridos ao caminho: as buchas tinham flores amarelo-claro e frutos verde escuro e o melão-de-são-caetano também de flores amarelo-claro, tinha frutos amarelo-ouro, que quando se abriam mostravam sementes de um vermelho muito intenso.

O caminho da caibreira começava um pouco antes da Barragem de João Horácio e era assim chamado porque no sangradouro da represa a árvore pairava alta e frondosa, com uma beleza que não escapava à vista e admiração de ninguém. Nas horas de calor,  passar no sangradouro tornava a viagem mais fácil, a água refrigerava o tempo e a árvore emprestava sua sombra a quem seguia por lá. Mas embora fosse o mais largo, o menos acidentado e o mais agradável, o caminho da caibreira era dos menos usados pelos meninos lá em casa.  Não só porque fazia muito arrodeio, encompridando a viagem, mas por ser também o mais mal assombrado, como dizia todo mundo.

Todos esses caminhos levavam também ao poço do Apodi, em cujo entorno havia muitas pedras e onde cresciam juremas, pereiros, marmeleiros e até favelas. E era alí, ao lado do Poço do Apodi, que também dava nome ao riacho, que terminavam para  mim todos os caminhos da rua. Era de frente para o riacho que ficava a nossa casa.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Tânia Farias 26 de junho de 2021 10:56

    Belíssimo.

  2. taniafarias 26 de junho de 2021 10:55

    Belíssimo.

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