Os cronistas das relações humanas

Willeisner
Um dos ícones da história dos quadrinhos, Will Eisner (1917-2005) tanto produziu como ensinou técnicas em mais de trinta publicações

Atrás de cada janela de um conjunto habitacional escondem-se situações das mais diversas, vivenciadas por tipos humanos singulares ou pateticamente normais, que em alguns momentos se entrecruzam, alterando o cotidiano de ambos.

E há alguém que espia esses momentos e os registra em forma de narrativa, seja ela em suporte papel ou em película, tornando-se um exímio cronista das relações humanas.

Assim o foram Will Eisner e Krzysztof Kieślowski.

Will Eisner retratou, em forma de histórias em quadrinhos, o dia-a-dia dos habitantes da fictícia Avenida Dropsie, bem como precisou o comportamento, os sons, os cheiros, os sabores, as alegrias e tristezas de uma porção de pessoas que ia e vinha pelas ruas de Nova Iorque, durante mais de três décadas.

Já o cineasta Krzysztof Kieślowski, em uma de suas obras-primas, Decálogo, conjunto de dez médias-metragens feitos para a televisão polonesa na década de 1980, narrou trechos das vidas de personagens que moravam num conjunto habitacional polonês, formado por vários condomínios, tomando como base Os Dez Mandamentos.

Will EisnerTanto Eisner quanto Kieślowski foram mestres em falar através das pausas e dos silêncios que envolviam cada um de seus personagens.

Ambos evocavam, em suas narrativas, seres humanos despidos do cru determinismo maniqueísta, mostrando que o homem é sempre capaz de ações boas e más, as quais são decorrentes de seus históricos de vida.

Os personagens que eles nos apresentaram, passavam por dilemas éticos e morais, eram vítimas de preconceitos e discriminação étnico-religiosa, sendo idealistas e sonhadores ou gananciosos capitalistas, ingênuos ou pilantras, jovens apaixonados ou pessoas amargas, membros de grandes famílias ou solitários inveterados.

Essa forma de fazer arte a partir da observação direta do cotidiano urbano contemporâneo foi fruto de um olhar direcionado aos documentários e uma vivência como diretor de teatro, em se tratando de Kieślowski, e da experiência com os dissabores de diversas guerras – II Guerra Mundial, Guerra da Coreia, Guerra do Vietnã –, e lembranças amargas e poéticas de Will Eisner, um garoto judeu que morou no Brooklyn e no Bronx, entre o final dos anos de 1910 até 1940, quando foi escalado pelo exército norte-americano para fazer cartilhas e ilustrar material de propaganda para as forças armadas.

Ao término das guerras, regressou aos bairros novaiorquinos até se mudar com a esposa para a Flórida, na década de 1980.

Dekalog-1989-izleAs histórias que Eisner e Kieślowski narraram continuam emocionando e intrigando as pessoas porque tratam de temas universais, como a inveja, a raiva, o ciúme, o medo de amar, a cobiça, a culpa, a crença e a descrença em um ser superior.

Também porque os dois autores nos aparecem não pela porta da frente, mas através de encontros nos corredores e elevadores, no metrô, no meio da rua, numa sala de aula, debaixo de um sol escaldante ou de um rigoroso inverno.

O que difere o quadrinista do cineasta é a forma com a qual eles nos colocam frente a seus personagens. Enquanto Eisner é poeticamente irônico, Kieślowski é denso, existencialista, visceral.

A Devir e a Companhia das Letras (e seu selo exclusivo para quadrinhos, o Quadrinhos na Cia.) lançaram boa parte das graphic novels de Will Eisner, no Brasil, entre elas Nova York – a vida na grande cidade (compilação que reúne Nova York – a grande cidade, O Edifício, Pessoas Invisíveis e Cadernos de tipos urbanos), Avenida Dropsie, Um Contrato com Deus e Assunto de família.

E Krzysztof Kieślowski teve seus grandes sucessos lançados em DVDs simples ou boxes para colecionadores, pela Versátil Home Vídeo.

Fotografia de capa: diretor polonês Krzysztof Kieślowski durante filmagens de Decálogo

Roteirista de histórias em quadrinhos, de cinema e games, além de organizar e prestar curadoria para eventos de cultura pop na cidade do Natal. [ Ver todos os artigos ]

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