Os des (encontros)

Visita de Gilberto Freyre a Câmara Cascudo, em 1984. Em pé, Fernando Luis (filho de Cascudo) e, sentada, Dona Dahlia (esposa). Foto copiada do portal Memória Viva

Toi et moi

“a vida é a arte dopo encontro embora haja tantos desencontros pela vida” (Vinicius de Moraes)

Um encontro pode mudar o destino da vida. Como aquele que ainda não aconteceu entre eu e você ( toi e moi) . Na música, na literatura, na ciência, assim como na vida os encontros são determinantes. Alguns tão próximos (geograficamente) e tão certos não aconteceram. Assim como o não encontro entre Gilberto Freyre e Câmara Cascudo, mesmo eles vivendo parede-meia.

O Brasil é formado de ilhas literárias e sem contatos, mesmo regionalmente. A internet felizmente tem ajudado nesse encontro, Como aqui no nosso SPlural.

Na MPB alguns encontros foram decisivos e profícuos. Os encontros entre os grandes sambistas Elton Medeiros e Paulinho da Viola; Tom Jobim e Vinicius de Moraes; Raul Seixas e Paulo Coelho, Noel Rosa e Wilson Batista e tantos outros.
Na literatura eles foram responsáveis por grandes páginas da cartografia literária mundial. Conflituosa e intensa foi a relação entre os poetas Verlaine e Rimbaud; Mário e Oswald de Andrade; Gilberto Freyre e Mário de Andrade, etc.
Oswald de Andrade foi o infant terrible da literatura e machucou muito o sentimental e genial Mário da Andrade. Questionou sua sexualidade assim como o genial Wilson Batista feriu de morte a Noel Rosa quando o chamou de Frankstein da Vila.
Mesmo quando o universo literário era próximo esse encontro muitas vezes não se deu. Gilberto Freyre achava Mário de Andrade, superficial. Mário não pactuava com o conceito de regionalismo enquanto o escritor de Apipucos não só defendia como promoveu o importante encontro regional de 1924.
O encontro entre os escritores José Lins do Rego e Gilberto Freyre foi decisivo para a vida de ambos. Na Avenida Lafayette no Recife eles encontraram-se e o viajado Gilberto mostrou um outro mundo para o Zé, que por sua vez levou o cosmopolita Freyre a ver os engenhos e a cultura local.
Decisivo também foi o encontro entre os pernambucanos Manoel Bandeira e Gilberto Freyre. “O de Apipucos” projetou o poeta Bandeira nacionalmente e o poeta genial escreveu um belo poema-homenagem ao criador do livro-fundador Casa Grande & Senzala.
Gilberto Freyre pediu para Manoel escrever um poema em homenagem ao Recife e o poeta escreveu em 1925 a um dos mais belos poemas da poesia universal:

Evocação do Recife

Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritssatd dos amadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois –
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância

A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças
[da casa de Dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na ponta do nariz
Depois do Jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos,
[namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:

Coelho sai!
Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão…)

De repente
nos longes da noite
um sino

Uma pessoa grande dizia:
Fogo em Santo Antônio!
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era São José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo

Rua da União…
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade…
…onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora…
…onde se ia pescar escondido

Capibaribe
– Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redomoinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os cablocos destemidos em jangadas
[de bananeiras

Novenas
Cavalhadas

Eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão nos meus
[cabelos
Capibaribe
– Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bananas com o xale
[vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo…

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errado do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife…
Rua da União…
A casa de meu avô…
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife…
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de meu avô

Físico, poeta e professor [ Ver todos os artigos ]

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