Os desafios de Isaura Rosado na Fundação José Augusto

Como já era esperado saiu hoje (05) no Diário Oficial a nomeação da professora Isaura Rosado para a direção da Fundação José Augusto. Diferentemente das vezes anteriores, no Governo Wilma de Faria, e no Governo Rosalba Ciarlini, chega ao cargo desta vez num arranjo claramente político. Foi indicada pelo deputado federal Beto Rosado, do PP, aliado do governo.

Com Wilma, a nomeação se baseou na experiência e amizade entre as duas. Já havia ocupado a Capitania das Artes (Funcarte) quando Wilma foi prefeita e antes de chegar à FJA passou pela secretaria adjunta da Secretaria de Educação e pela Fapec (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado do RN), ambas no Governo Wilma. Com Rosalba, de quem é cunhada, pesaram essas experiências anteriores, claro, e os critérios familiar e de confiança.

O fato é que nos últimos dez anos a Fundação José Augusto ficou nas mãos do PT (com Crispiniano Neto – duas vezes – e Rodrigo Bico) e Isaura Rosado, três vezes. Um período que abrangeu três governos: Wilma, Rosalba e Robinson. Os dois primeiros, a história já permite o julgamento, medíocres de chorar. E o terceiro, em curso, até o momento segue na mesma linha.

Vou relembrar alguns fatos que são de conhecimento público, mas é provável que alguns tenham esquecido. No Governo Wilma, Crispiniano enfrentou falta de recursos e má vontade política de Wilma. Com Rosalba, Isaura teve apoio político, mas faltaram os recursos. Essa limonada acabou prejudicando imensamente a Fundação, que como todos sabem, não tem orçamento definido, vive eternamente de pires na mão (bem diferente da Secretaria de Educação, por exemplo), dependendo dos humores do governante de plantão.

São essas gestões, portanto, em maior e menor graus, responsáveis pela situação vexatória vivida atualmente pela cultura, com o Teatro Alberto Maranhão, a Biblioteca Câmara Cascudo e o Museu Café Filho fechados, e a maioria das Casas de Cultura abandonada, a pinacoteca precisando de reformas, atrasos em pagamentos a artistas etc.

Pelas razões expostas mais acima, Isaura Rosado não terá o mesmo trânsito junto ao Gabinete de Robinson que teve nos de Wilma e Rosalba. A crise financeira do estado é ainda pior agora do que foi com Rosalba. Além disso, o movimento artístico/cultural está mais organizado e atuante. A carta divulgada há poucos dias, assinada por importantes entidades culturais independentes do estado, é uma prova disso. Os funcionários da FJA também divulgaram uma carta aberta criticando o modo como vem sendo feitas as substituições nos cargos comissionados. Enfim, problemas por todo lado.

O setor cultural esperava que o governador cumprisse a promessa de campanha de ouvir o segmento antes de indicar o diretor da FJA. Robinson não deu o menor cartaz, sequer recebeu o pessoal que levou a carta, entregue no Gabinete Civil. A carta também sugeriu dois nomes para o cargo, dos produtores Josenilton Tavares e Tatiane Fernandes.

Os artistas divulgaram vídeo do governador, feito durante a campanha, em que ele afirma: “Quem irá participar da nossa equipe, da Fundação José Augusto e demais órgãos que irão fomentar a cultura da população, serão escolhidos através dos grupos que cuidam da cultura do nosso estado”. Não foi o que ocorreu e certamente isso terá reflexos na relação da comunidade artística com a nova antiga gestora.

Quando deixou a FJA, em dezembro de 2014, Isaura fez um balanço de sua gestão, durante uma solenidade realizada na Pinacoteca (leia aqui). Um dos aspectos que chama a atenção é a quantidade de recursos que ela afirma estarem garantidos para a próxima gestão, no caso, de Robinson. Tudo leva a crer que esses recursos continuam entocados. Possivelmente aguardavam o retorno dela ao cargo. O imprescindível Fundo Estadual de Cultura também estava pronto para ser aprovado. Não saiu ainda do papel. A Lei Câmara Cascudo é outro ponto crucial que precisa de mudanças, estudos já foram feitos e refeitos, mas também não andou. Enfim, a lista de questões importantíssimas para o setor não é pequena e só aumenta com o passar dos anos.

Torcemos para que agora a Fundação José Augusto deslanche. De preferência sem eventos megalomaníacos e dispendiosos, tão ao gosto de governantes populistas e culturalmente ocos. Com menos marketing e mais diálogo e projetos consistentes, ouvindo os principais interessados, a classe artístico/cultural e à população. Sei que isso é meio lunático, mas não custa sonhar.

Comments

There are 2 comments for this article
  1. José de Castro 5 de Maio de 2016 19:45

    Ilusório esperar um MILAGRE… A cultura vai continuar órfã… Infelizmente… De pires na mão e com uma gestora não desejada pelos meios culturais… Lamentável…

  2. Anchieta Rolim 6 de Maio de 2016 14:16

    É por essas e outras, que resolvi desde a minha última exposição na Pinacoteca do Estado, não participar de mais nada em relação as Artes Plásticas em certas instituições públicas aqui do Estado RN. Se um dia, as coisas mudarem para melhor, eu volto. Refiro-me principalmente a falta de respeito e suporte de certas instituições para com os Artista. A falta de profissionalismo dessa instituições, é gritante,

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