Os Diários de Brennand

Há alguns anos atrás, estive, juntamente com minha mulher e meus filhos, no Ateliê de Francisco Brennand, na querida e (desculpem-me os pernambucanos) alquebrada cidade do Recife. Naquela viagem, havíamos nos proposto conhecer, também, o castelo do primo, Ricardo. E assim fizemos. Se me recordo bem, os dois lugares ficam no mesmo bairro ou em bairros próximos. A visita que fizemos ao castelo medieval incrustado na velha Recife de muitas histórias me deleitou. Não pela edificação, que considerei um pouco extravagante (não necessariamente kitsch, porém extravagante e, de certa forma, artificial) e fora de nossa realidade contemporânea, lembrando um parque temático feito para atrair turistas e curiosos. Deliciei-me mais pela enorme e rica área verde, pelos objetos (adorei a coleção de armas brancas e armaduras) e pela enorme biblioteca, que não pude ver por dentro (estava em reforma), mas que ficou pululando em minha imaginação.

Esse texto não busca estabelecer paralelos ou comparações, mas elas surgem por acaso. E, diante das comparações, pude perceber que na Oficina de Francisco Brennand, diferentemente do castelo do outro familiar, havia muito mais amor à arte e menos vaidade, invertendo a ordem que percebia na outra edificação. E existia, sim, um ambiente mágico, como se fora a existência de um espaço idílico no meio daquela metrópole caótica e frenética. Brennand, o Francisco, reinava solitário por entre aquelas estruturas gigantescas sobre as quais o sol e o amor pousavam. Eu o via, naquele dia, passeando, em meio às veredas e as colunas de seu ateliê, com suas belas barbas brancas, apoiado por sobre uma bengala. Ninguém se parece com Brennand. Ninguém disputa com Francisco Brennand, em sua beleza de homem maduro que se ressalta na “juba” branca. Um leão caminhando, lenta e soberanamente, sobre o seu reino. Um profeta com seu cajado. Um mago em meio ao mundo fantástico que criou em volta de si. Embrenhamo-nos, num certo momento, em uma pequena multidão que se formava em torno daquela figura quase mítica, parado lá e com as duas mãos apoiadas sobre a bengala. Ereto. Digno. Altivo. Deparamo-nos com um homem sereno, conhecedor, certamente, do valor de sua obra, sem soberba. Conversava com todos sobre arte, e com arte. Meu filho, então com menos de dez anos, lhe indagava, com sua linguagem e voz infantis, a respeito duns arcos e flechas que apareciam em quase todas as peças, como uma espécie de marca registrada. Simbolizava – explicava Brennand – o orixá Oxóssi, caçador por natureza, porém cultuador da inteligência, da ciência. Brennand possui algo, um mistério, que somente os grandes mestres possuem. Os seus segredos talvez transpareçam um pouco naquele éden humanizado da oficina, com suas peças de cerâmica, suas estátuas fálicas, seus pássaros Roca, sua pintura erótica… Porém, Brennand quer dizer e diz algo explícito. Pela arte se pode viver. E em meio a ela. Como ele faz, todo dia, quando caminha pelas veredas de seu mundo particularíssimo, que abriu aos olhos de todos os de olhos abertos. Agora, percebo que Brennand já havia dito mais coisas, e de forma explícita, num diário. Um diário que o site Substantivo Plural revela ao mundo intelectual e sensível, através das mãos de seu amigo e seguidor Fernando Monteiro. Esse presente é, não somente para os seguidores do site, mas para o Brasil e para o mundo. É um acontecimento inédito que merece louvor e atenção de todo o mundo culto. A ninguém é dado desconhecer o pensamento exposto e ofertado de forma generosa por Francisco Brennand, homem, artista e mito. Que colossal herança nos antecipa esse mestre pernambucano!

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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