Os doidos do Alecrim

Foto: Sandro Fortunato

Alecrim 100

Em toda cidade tem um doido. No Rio grande do Norte eles são de montão. Dizem que é a mania dos casamentos consangüíneos. No interior a população é menor – todos se conhecem – eles de destacam. Na capital são mais disfarçados.

Na Natal de antigamente foram muitos os doidos que fizeram a alegria da cidade e da meninada, que têm um pacto com o capeta. Pouca gente conhece os seus nomes de batismo. No Alecrim eles animavam as feiras e os dias pacatos. Muitos eram fascinados pelo movimento veloz.

“Cuíca” pedia esmolas e quando era agraciado batia forte com a cabeça na parede, no chão ou na carroceria de algum caminhão. Quando a ente dizia Cuíca, ele respondia ajuizado: – meu nome é Juzé.

“Lambretinha” gostava de fazer ponto na Praça Gentil Ferreira, onde algumas vezes fazia suas trapalhadas e necessidades. Numa cidade de pouco tráfego de automóvel, Lambretinha acelerava e corria célere feito uma lambreta pelas ruas da cidade. Gostava de chupar laranja mesmo misturada com água suja. Dormia em baixo das mangueiras de Maria Boa. Certa vez um cliente perguntou se era boa aquela dormida, e ele de pronto respondeu: – seria melhor não fosse o barulho das meninas.

Outro doido que andava correndo era “Velocidade”. Veado, assumido. Homossexual era pra gente granfina. Numa sexta feira Velocidade teve um banquete. Ao passear na companhia de um marinheiro numa sexta- feira, um menino que o conhecia brincou: – hoje é sesta-feira santa. Velocidade respondeu de imediato: – Marinheiro não é carne é peixe.

Muitos doidos eram deficientes físicos. “Maria sai da Lata” tinha um defeito na perna e pedia esmolas. Os meninos gritavam: – Maria sai da lata!

Ela dizia correndo com um cabo de bassoura: – Maria sai da lata é a mãe.

Geraldo de Lagoa Salgada parecia um cachorro, quando sentado. Andava de quatro por conta do defeito físico. Também corria muito e freiava como se fosse um carro.

Muitos outros personagens fizeram a alegria da cidade de Natal. A viúva Machado comia o fígado dos meninos. Cú de ouro foi um grande pianista.

A imperatriz do Brasil já não freqüenta o Teatro Alberto Maranhão. Zé Menininho não toca mais sua sanfona e passou a batuta para André Rabequeiro, que também faleceu.

A cidade perdeu seus doidos famosos. Os de hoje são enrustidos e sem graça. O mais famoso é um que anda ali pela cidade alta e não acredita em Deus nem em nada. E Deus, fulano!. Que Deus que nada, nunca ninguém me deu nada. Só se acalma quando recebe uma gorjeta

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