Os eleitos

Ontem, depois que saiu a já famigerada lista de convocados de Dunga para a Copa da África, fiquei com um filme na cabeça – e infelizmente não foi ‘Todos os Corações do Mundo’. Lembrei de Os Eleitos (foto), de Philip Kaufman. É uma adaptação supimpa do livro homônimo de Tom Wolfe sobre os bastidores do programa espacial norte-americano.

A novela romantiza, mas bem ancorada na realidade, como os primeiros astronautas da Nasa foram selecionados entre aviadores de ponta das forças armadas do Tio Sam. Alguns anos após o fim da Segunda Guerra, uma turma de aviadores casca-grossa pega o rumo de uma base aérea para disputar quem consegue quebrar a barreira do som.

Eles acabam entrando numa disputa louca para saber quem é o melhor entre os melhores. Até que um belo dia os russos começam a corrida espacial. Para não ficar para trás, os EUA resolvem recrutar seus astronautas entre a turma da base, afinal, os caras são os feras. Só que, lá pelas tantas, a Nasa não está lá muito interessada nos melhores disponíveis no mercado. Quer dizer, os escolhidos são muito bons, mas estão longe de serem os melhores.

A lista de Dunga é como a da Nasa: em vez da genialidade, a mediocridade é o tom. Dá até pra ser craque para jogar na Seleção, mas tem que ser de um tipo cada vez mais comum, mais dentro dos conformes, dos padrões, das estatísticas. Competente, nada mais que isso. Sem animais, seja no estilo Ganso ou Edmundo, apenas gente boa e sem sal, como o Kaká. Se tiver algum mais brabo, que pelo menos seja só com a ESPN.

A questão é que, no final das contas, a Nasa se deu muito bem. Apesar das várias rasteiras passadas pelos russos, acabou chegando à Lua primeiro e ganhando a disputa simbólica por umas duas cabeças de vantagem. Afinal, os escolhidos podiam não ser os tampas de crush, mas tinham o que os técnicos da Agência chamavam de ‘the right stuff’ (por sinal, o título original do filme).

Quem sabe, os selecionados por Dunga tenham a mesma sorte, ou a ‘coisa certa’ para vencer a Copa. Só uma coisa me preocupa: todo mundo sabe como o mundo ficou careta e sem graça depois que os americanos ‘venceram’ a Guerra Fria na base da mediocridade. Só espero que não aconteça o mesmo com o futebol.

Jornalista, com passagem por várias redações de Natal. Atualmente trabalha na UFPB, como editor de publicações. Também é pesquisador de HQs e participa da editora Marca de Fantasia, especializada em livros sobre o tema. Publicou os livros “Moacy Cirne: Paixão e Sedução nos Quadrinhos” (Sebo Vermelho) e “Moacy Cirne: O gênio criativo dos quadrinhos” (Marsupial – reedição revista e ampliada), além de várias antologias de artigos científicos e contos literários. É pai de Helena e Ulisses. [ Ver todos os artigos ]

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