Os Estrangeiros, de José de Castro

Nem tudo é poesia neste país
Nem tudo é carnaval
Nem tudo é futebol
Nem tudo é samba
Nem tudo rima com dignidade
Ou sequer com liberdade e democracia…

“Pero Vaz, dónde vas”, se nem sabes
Por onde caminhas? Estrada de duques,
De condes, deu no que dá no reino das
Bruzundangas, das mugangas e das
Medidas provisórias, sem métricas, aéticas,
Antiestéticas, ilusórias, escalafobéticas…

Ah! falta de sorte do vate ao ter nascido nestas terras
De aquém-mar, onde se legisla a dor com despudor
O que leva a nação à inação, ao triste fado, ao desatino
De ser grande e ser pequeno menino tupiniquim
Frágil, tão frágil assim, com dor de barriga, dor de dente
Dor de intriga, dor de ferida antiga que não para de sangrar…

Desde os mil e quinhentos e lá vai fumaça que essa sina
Não passa e assassina com sanha o destino de quem
Tem apenas o medo por enredo e também o desengano
Esse laço, o nó insano que sufoca a garganta
Uma tristeza de chicote sobre o lombo
Quilombo dos pesares  – dos czares, dos césares? – dos azares
Que zombam de todos nós que ficamos no assombro
No susto do custo de vida que nos custa tanto
– e ainda por cima nos fazem de bobos na corte…

E dançamos todos nós.
O samba no pé, a tristeza na cara.
A bola rola e somos verdadeiros campeões
– da safadeza e da corrupção.

Nem tudo é país neste carnaval.
Aqui a cartola sai do coelho.
Aos de fora, rezamos e dobramos o joelho.
E de nós mesmos somos estrangeiros.

Fotografia: Mayke Toscano

Jornalista, escritor e poeta. [ Ver todos os artigos ]

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