Os extraterrestres somos nós

Por Luiz Penha

Desde os tempos da prensa de Gutenberg (1440) até os nossos dias, a humanidade tem passado por verdadeiras revoluções tecnológicas. Uns assimilaram as novas mídias, outros preferiram resistir, por opção. A cada hora são inúmeros modelos de aparelhos celulares, ipods, smartphones e tablets.

Toda essa gama de tecnologia me faz lembrar outras tantas tecnologias utilizadas em um passado recente como as máquinas de datilografia, máquinas de calcular, produtos como os carimbos de madeira, as folhas de papel carbono, etc.

Na área contábil, área de atuação de meu pai, presenciei, dentro de casa, livros imensos de registro de entrada e de saída de mercadorias, utilizados no registro contábil das empresas comerciais. Hoje, as empresas já não precisam deles para esse tipo de registro e muito menos de fechar o ponto comercial, por vários dias, para realizar o balanço, quando afixavam na porta aquele conhecido aviso e/ou cartaz com a frase: “fechado para balanço”.

A chamada revolução tecnológica chega sem pedir licença, ultrapassa etapas, especificamente em um país de 500 anos que enfrentas problemas cruciais na área de educação.

O mais comum hoje em dia no Brasil é a apresentação de dados estatísticos, nos quais se revelam significativas taxas de analfabetismo; a pouca leitura por parte da população brasileira, além do custo elevado no preço dos livros publicados.

A escola, especialmente no ensino básico, quando não é precária fisicamente, sofre pela falta de professores, sem falar nos parcos salários pagos aos mestres, principalmente nas regiões mais pobres do país.

É sabido e notório o esforço do Ministério da Educação em criar os mecanismos para uma significativa melhora do ensino e das condições para que os cidadãos possam correr atrás do prejuízo, no que tange à qualificação educacional e profissional. Como, efetivamente, acreditar que essa estudantada vai se sentir preparada e qualificada para disputar uma vaga no mercado de trabalho, diante dessas constatações?

Por outro lado, é confuso tentar entender como em um país que não conseguiu despertar a paixão e o interesse pela leitura de livros impressos por parte da maioria da população, haja o empenho, por parte dos órgãos gestores da educação nacional, em implantar nas escolas públicas a utilização de tablets em detrimento, possivelmente, do livro impresso.

É reconhecido que especialistas da área já defendem essa tese, como citado em matéria jornalística no site do IG, no dia 13 de abril de 2011: “Ministério da Educação estuda uso de tablets nas escolas públicas”, em que Gilberto Lacerda, especialista em tecnologia da educação da Universidade de Brasília (UnB), avalia: “Estamos vivendo uma revolução e precisamos estar embarcados nelas. Estamos mudando o suporte escrito do papel para o digital. Há um saudosismo em relação ao livro, mas a tendência é o livro desaparecer. O conteúdo, no entanto, não desaparece”.

Nada contra o uso de novas tecnologias no ambiente escolar, especialmente no ambiente universitário, onde já é presente essa interatividade, acesso a bibliotecas digitais, conteúdos disciplinares, menções, notas, e até da comunicação antecipada ao aluno da ausência de um professor, no horário normal da grade acadêmica, evitando que o aluno se desloque até a sede da Universidade.

O preocupante, enfim, não é a entrada da tecnologia na escola de nível fundamental e/ou básico, mas o uso que irá se fazer dela. Sabemos que, em muitos casos e exemplos, quando não fica obsoleta é mal utilizada, por falta prévia de qualificação do professor para aplicabilidade no dia a dia da sala de aula.

Se as previsões forem essas, de uma educação meramente virtual, seremos habitantes de um mundo a distância. Não precisaremos mais interagir presencialmente com o nosso próximo. Basta tocar na tela e enviar o relatório, a planilha, o questionário, a prova, o resumo, o pagamento, o ponto de vista.

O toque humano, que inclui demonstração de carinho, amizade, afeto e solidariedade, será substituído pelo toque digital, onde reconheceremos que os extraterrestres somos nós e não sabíamos.


Luiz Penha é Jornalista atualmente radicado no DF.

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. horácio oliveira 5 de agosto de 2011 6:57

    Claro, Celina. É isso mesmo! Essa empolgação com as tecnologias de última hora é sempre muito redutora.

  2. Cellina Muniz 4 de agosto de 2011 18:50

    Os tablets em detrimento do livro impresso? Será? Parece aquela velha nostalgia do discurso “do antes era melhor”… Essa preocupação com o suposto fim do livro não é nova. Roger Chartier mostra muito bem que, na longa história do livro, vários momentos “ameaçaram” esse objeto cultural, como por exemplo quando da popularização dos jornais no século XIX ou do advento da televisão e, agora, do computador e internet… Como o mundo é movimento, mudam as práticas socioculturais e assim as formas de leitura e as relações entre autores, editores, leitores e meios de escrita/leitura, mas o livro, no seu formato de códice que remonta ao século II, continua por aí circulando entre nós e certamente vai conviver por muito tempo ainda com as novas mídias…

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