Os filmes que eu não esqueci

Amigos e amigas:

Publiquei no blog “Refletores da fama” e no jornal Tribuna do Norte, a convite de Valério Andrade, uma seleção de filmes de estima pessoal, que reproduzo para vocês:

OS FILMES QUE EU NÃO ESQUECI (em ordem alfabética)

Natalense, radicado em São Paulo, Marcos Silva é professor titular de Metodologia da História da FFLCH/USP, desde 2007, onde também obteve os graus de Livre-Docente (1999), Doutor (1987), Mestre (1981), Bacharel e Licenciado em História (1976).
Publicou individualmente seis livros, entre os quais, “Prazer e Poder do Amigo da Onça” (1989).  Organizou três coletâneas sobre cinema: “Clarões da Tela” (2006) e “Cenas Brasileiras – O Cinema em Perspectivas Multidisciplinar” (2009), em parceria com Bené Chaves,  e “Metamorfoses das linguagens – Histórias, Cinemas, Literaturas”, em parceria com Maurício Cardoso e Júlio Pimentel (2009).
O leitor poderá se comunicar com Marcos Silva através do e-mail: marcossilva.usp@uol.com.br . (Valério Andrade).

Alemanha ano zero – foto (Roberto Rosselini) – A guerra não acaba quando cai a última bomba. Vidas humanas seguem sendo destroçadas a longo prazo. A opressão não se deu apenas nos campos de concentração e tem dolorosas continuidades no mundo “em paz”.
Amor sublime amor (Robert Wise e Jerome Robbins) – A imensa beleza do amor é destruída pela ferocidade das relações sociais. Resta a memória artística sobre uma New York que resignifica Shakespeare e o cinema musical.
[O] ano passado em Marienbad (Alain Resnais) – O amor como esperança de descoisificação: se tiver acontecido algo entre homem e mulher, a mudança é possível e o filme termina como aposta. A exatidão do mundo controlado sofre abalos a partir do desejo.
Aquele que deve morrer (Jules Dassin) – Como o sagrado é possível no mundo posterior à Revolução Industrial? Através do inconformismo e da revolução social. O martírio dos inconformistas não significa perda da chama sagrada/revolucionária.
Atalante (Jean Vigo) – Somente o amor consegue tornar possível a beleza absoluta. Se esse objetivo (beleza absoluta) é presunçoso na produção artística, Vigo conseguiu se aproximar muito de sua realização através de recursos poéticos.
[O] bebê de Rosemary (Roman Polansky) – Um momento de sutileza na apresentação do pior horror. O diretor está num ponto particularmente bom e faz parte desse momento escolher atores brilhantes e saber dirigi-los para serem livres na interpretação.
Blow-up (Michelangelo Antonioni) – A narrativa reflete o tempo todo sobre o que está mostrando, sobre o que é possível ver. É um nivel altíssimo de consciência do cinema como pensamento visual.
Cabra marcado para morrer (Eduardo Coutinho) – A ditadura não conseguiu fazer com que tudo fosse esquecido. Pelo contrário, duras lembranças servem para lembrar o que se exige como democracia, em especial, igualdade. É o documento das sensibilidades.
Cidadão Kane (Orson Welles) – Ninguém conhece ninguém direito. Cada um é mil coisas e poderia ser outras tantas mais. Nunca os limites do dinheiro foram tão bem expostos: o milionário é um fracasso humano.
Contos da lua vaga (Kenji Mizoguchi) – Luz e neblina: os planos na pintura japonesa são de uma sutileza muito especial. Mizoguchi traz isso para seus delicados contos dedicados a amor e memória.
[A] conversação (Francis Ford Coppola) – A ilusão do auto-controle se desfaz com consciência e profunda dor. O espião se descobre espionado, burlado, paralisado. 007, quem diria?, acabou por se destruir.
[Um] corpo que cai (Alfred Hitchcock) – O amor acontece como ilusão mas é real: “uma ilusão deve morrer”. Hitchcock conquistou, neste e noutros muitos filmes, o poder de construir planos cinematográficos inexcedíveis dentro das ilusórias prisões de Hollywood.
Doutor Fantástico (Stanley Kubrick) – A outra face de Limite de segurança, tragédia de Sidney Lumet: o mundo se acaba como farsa. Kubrick se excede desde o começo ao fazer mil tipos bons de cinema.
[O] Encouraçado Potemkin (Sergei Eisenstein) – O cinema já nasce grande. Junto com as peripécias da montagem, Eisenstein nos ensina pontos de vista (o veleiro da perspectiva do marinheiro morto, no cais de Odessa) que marcariam até John Ford (Rastros de ódio).
Era uma vez em Tóquio (Yasujiro Ozu) – O mundo, em acelerada mutação, se defronta com o peso das tradições. O olhar da câmera lembra o tempo todo que estamos no universo dos tatames, que pode estar se acabando.
[Os] esquecidos (Luís Buñuel) – Quem via fantasia gratuita no Surrealismo de Buñuel deve ter ficado espantado com essa tradução literal do conceito nesse filme: sur-realisme, realismo exagerado. Sem pieguice, os terríveis meninos de rua são apenas meninos.
[A] estrada (Federico Fellini) – Que aconteceu com Giulietta Massina nesse filme e no igualmente grandioso Noites de Cabíria? Ela magnetiza a cena a tal ponto que quase esquecemos da bela concepção geral do diretor e do desempenho raro de Anthony Quinn.
Estranho encontro (Walter Hugo Khoury) – Desencontros e encontros amorosos, imagens carregadas de simbologia sobre tempo e possibilidades do mundo. Khoury aborda problemas sociais menos visíveis (amor e desigualdade) mas muito intensos.
[A] felicidade não se compra (Frank Capra) – Fábula idealista, reflexão sobre angústias sociais, interpretações brilhantes de todo o elenco: um afinadíssimo hino à vida que ultrapassa interpretações religiosas, em nome da grande arte.
[A] general (Buster Keaton e Clyde Bruckman) – O riso em Keaton nunca perde um forte teor de indagação. Existem amores (a locomotiva e a namorada) e oponentes (os confederados): a grandeza nasce da paixão.
Hannah e suas irmãs (Woody Allen) – Há suaves rimas que percorrem esse filme, articulando Hannah, suas irmãs, gêneros artísticos e o mundo inteiro. O equilíbrio entre riso e drama se mantém de maneira muito especial, auxiliado pelos ótimos intérpretes.
Hiroshima meu amor (Alain Resnais) – Não há como escapar da memória. Mas o que se rememora? Muito mais do que o que se passou, a memória é a vida difícil, onde o amor sem futuro pode acontecer. O que o holocausto atômico fez com o futuro?
[Uma] história real (David Lynch) – Limites da vida (velhice, doença, pobreza) são espaço da vida: dá para fazer muita coisa. Enquanto isso, contemplamos as estrelas – beleza com outro tempo de duração. Entre atores brilhantes, Sissy Spacek consegue se destacar.
[O] homem do prego (Sidney Lumet) – Uma pioneira reflexão sobre destinos dos que sobreviveram ao Holocausto no mundo capitalista. Emular Resnais (Hiroshima meu amor) foi apelar para o que havia de melhor.
Imitação da vida (Douglas Sirk) – Arte subverte: um melodrama transforma a aparente vilã (Sarah Jane, filha de Annie Johnson) em personagem crítico central. Mahalia Jackson, cantando no enterro, configura a cultura afro-americana como epifania.
[Os] Incompreendidos (François Truffaut) – O mundo mudava e se mantinha o mesmo: família, instituições disciplinares. Antoine Doinel contempla o espectador no plano final como se perguntasse: o que você está fazendo aí? Resposta: vendo grande cinema.
Johnny Guitar (Nicholas Ray) – Um faroeste provocativo: pistoleiras ao entardecer, função de homem é fazer música e servir de título. As mulheres apresentam poderes nem sempre visíveis nela: propriedade, política, luta. Mas não dispensam os machos.
Levada da breca (Howard Hawks) – Por um lado, cinema de atores: grandes desempenhos de Katherine Hepburn e Cary Grant. Por outro, a evidente mão de um mestre da direção: é difícil pensar num talento tão grande para o ritmo cômico.
[Um] lugar ao sol (George Stevens) – O romance Uma tragédia americana foi recortado para salientar que o dinheiro não tem ética. Excelente elenco (a grande Shelley Winters e os belos expressivos Elizabeth Taylor e Montgomery Cliff) sofre a vitória do capital.
Luzes da cidade (Charles Chaplin) – Carlitos desmonta poderes (monumento, riqueza) e se esconde de si, passando por milionário. Mas a beleza do mundo possui traços surpreendentes que só a ex-cega poderá identificar. Somos curados junto com ela.
Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade) – Que aconteceu com nossa modernidade? O filme visita um clássico literário para devorar veredas da cultura brasileira. E o Cinema Novo fez um filho na Chanchada, irmão da Terra em transe e do Azyllo Muito Louco.
[O] mágico de Oz (Victor Fleming) – A delicadeza da fantasia se tornou possível no cruzamento entre várias estradas do cinema americano, com destaque para os musicais e os melodramas de formação.
Mamma Roma (Pier Paolo Pasolini) – Pasolini é um grande diretor sem medo de uma grande atriz: Anna Magnani. Resulta disso uma produtora que até o vaidoso Visconti reconheceu em relação a Belíssima: a atriz como co-diretora.
Meu Tio (Jacques Tati) – Um anônimo que varre a rua é personagem. Uma subida de escada é um episódio narrativo especialmente bem feito. O riso ensina que os desajustados são fundamentais.
Morte em Veneza (Luchino Visconti) – O diretor conversou com Thomas Mann sobre esse projeto nos anos 40! É o coroamento sem retoques de uma grande carreira; reforçado por fotografia, música e atores excepcionais. A beleza vence de ponta a ponta a morte.
[Uma] noite na ópera (Sam Wood) – Momento privilegiado da comédia de ator, com intensa representação física. Um fiapo de argumento é transformado em tapeçaria pela habilidade desses singulares marxistas.
Persona (Ingmar Bergman) – A mudez de uma atriz se compensa pela eloqüência do mundo revelado: hierarquia social excludente, negação do amor, planejamento da agressão contra quem se amou. A beleza do edifício fílmico escancara instrumentos de seu fazer-se.
Punhos de campeão (Robert Wise) – Esse mundo recusa a verdade: o velho lutador perde porque ganhou. Sobra o amor, refúgio de relações profundas.
Quanto mais quente melhor (Billy Wilder) – A excelência da direção se dá ao luxo de exibir um elenco arrasa-quarteirão, é difícil indicar quem está melhor: Marylin Monroe, Jack Lemmon, Tony Curtis, George Raft, Joe Brown? Melhor ficar com todos e os outros.
Rastros de ódio (John Ford) – O faroeste vai à Odisséia e descobre a invenção da América. Belas mulheres de avental têm por contraponto feios pistoleiros que recuperam a família. No plano final, o mundo do filme e o resto do mundo são brilhantemente expostos.
[A] regra do jogo (Jean Renoir) – Uma canção de Cazuza repete no refrão: “Enquanto houver burguesia não pode haver poesia”. Esse verso pode ser lido como síntese da obra-prima de Jean Renoir: o amor é impossível no mundo burguês.
Rocco e seus irmãos (Luchino Visconti) – É um ápice do cinema com preocupações sociais. Ao mesmo tempo, o filme dialoga com a ópera e mesmo o melodrama, passando pela iconografia cristã e moderna (pintura metafísica de De Chirico). O elenco deslumbra.
São Bernardo (Leon Hirzsman) – O filme é uma vitória contra dificuldades de produção: transformou a falta de película em exigência de concisão e longos planos. No elenco, Othon Bastos e Isabel Ribeiro se destacam, sem demérito para Nildo Parente e Mário Lago.
Sete noivas para sete irmãos (Stanley Donen) – Esse elogio do orgulho hetero se desenrola através de atléticas coreografias masculinas. Mas a civilização vem das astuciosas fêmeas: o melhor é pensar na união dos dois lados.
[O] sétimo selo (Ingmar Bergman) – A Idade Média sueca revém num sutil diálogo com os impasses do mundo pós-holocausto atômico. A arte vence a morte através dos pobres atores mambembes.
Solaris (Andrei Tarkovsky) – Apresenta a vida humana diante da onipotência científica, que não consegue abolir angústias metafísicas. A permeabilidade entre imaginário e real (o imaginário tornado pertubadroramente real) surge em magníficas imagens.
Taxi-driver (Martin Scorcese) – É possível fazer algo – mas quase sem querer. Restos da contracultura: prostituição infanto-juvenil e imensa violência potencial. A memória do recalcado se manifesta no corte moicano de cabelo do motorista e redime essa América.
Tempo de guerra (Jean-Luc Godard) – Descoberta e memória do cinema, adeus às ilusões ideológicas. Godard faz uma síntese de gênero que o coloca num beco sem saída: os cartões postais são os troféus de papel que sobraram para soldados, candidatos à morte.
Terra em transe (Glauber Rocha) – Auto-reflexão de esquerda: qual revolução pensávamos fazer, qual revolução efetivamente perdemos? Além da montagem brilhante, os atores fazem cinema sem complexo de inferioridade, com destaque para Glauce Rocha.
Vidas amargas (Elia Kazan) – Um brilhante recorte no romance de John Steinbeck nos apresenta o que o dinheiro faz com as pessoas. A atriz Jo Van Fleet consegue roubar a cena num filme recheado por brilhantes pares – James Dean, Julie Harris e Raymond Massey.
Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos) – Seres pobres são tratados como gado: o som de carro de boi abre e fecha o filme com a imagem da família de Fabiano. Mas eles são seres humanos, razão pela qual continuam tão profundamente co-moventes para nós.
Viver (Akira Kurosawa) – Morrer é um balanço da vida. O Japão, depois da guerra, aparece como uma perda de si. Mas é possível fazer coisas decentes neste mundo, embora nos custe apenas a vida.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

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