Os governantes se promovem e a gente paga a conta

Por Eugênio Bucci
ESTADÃO

Você acredita em propaganda oficial? Acredita naquelas campanhas publicitárias na TV, todas grandiloquentes, multicoloridas, açucaradas e heróicas, quase épicas, em que prefeitos, governadores ou ministros de Estado proclamam suas proezas colossais pelo bem do povo? Falando francamente, você acha que essa gente diz a verdade?

Quanto a isso, temos uma notícia boa e outra má. Começando pela boa: você dirá que não é tão crédulo assim e que olha toda essa política de promoção governista com uma ponta de desconfiança, ou mesmo com um total ceticismo. Tanto melhor. Desde sempre, duvidar do poder é o melhor antídoto contra os fanatismos, os autoritarismos e o culto da personalidade daquele que governa.

Agora, a má notícia: os governos acreditam que, se insistirem com propaganda caríssima e acachapante, no fim das contas você acabará acreditando neles, e nada, nenhuma lei, pode impedi-los de aumentar a gastança. Ato contínuo, eles torram dinheiro público no esporte que é a única unanimidade da política brasileira. Estamos falando do esporte da autopromoção consentida, pelo qual o ocupante de um cargo no Poder Executivo alardeia as suas próprias (supostas) virtudes com recursos que deveriam ser de todos. Todos os políticos, tanto faz o partido, são iguais na prática desse esporte. Uma vez no poder, gente que se diz de esquerda age do mesmo modo que a direita. Tudo com nosso dinheiro.

Recentemente, a prefeitura de São Paulo, que manda no maior orçamento municipal do país, começou a despejar na TV local seus filmetes de otimismo natalino. O slogan é “antes não tinha, agora tem”. Já viu, né?

O pobre telespectador paulistano olha aquilo, sai na rua e acha que endoidou. Onde está a cidade que o prefeito promete na TV? Na megalópole publicitária, aparece uma jovem deslumbrante, feliz, que nos conduz a postos de saúde aprazíveis como o nirvana. Na metrópole-cenário em que ela faz deslizar seus encantos e seus sorrisos, fulguram escolas, a luz é farta e a água abundante. A musa kassabista passeia em ruas limpíssimas. É o céu na terra da garoa.

Nessa toada ficcional, quase insultuosa, o município paulistano saltou de um patamar de R$ 12 milhões gastos com publicidade governista, em 2005, para a estratosfera de R$ 110 milhões em 2010. Num intervalo de cinco anos, o volume foi multiplicado por quase dez. Com o chapéu alheio, por certo.

No Estado de São Paulo, o mais rico do Brasil, a progressão perdulária é igualmente geométrica. Em 2003, o Palácio dos Bandeirantes queimou R$ 33,3 milhões no esporte da autopromoção. Em 2010, a conta fechou em R$ 266,6 milhões (os números de 2011 ainda não são conhecidos, mas devem permanecer por aí).

Se os programas sociais de saúde, moradia e educação crescessem nas mesmas bases, a vida real seria a melhor propaganda do mundo. Mas ela não é. A publicidade dos governos é diretamente proporcional à taxa de infelicidade dos governados. Ela só precisa vender o céu, porque a vida é um inferno. A publicidade oficial – sob a desculpa de que está informando o cidadão, vê se pode… – existe apenas para engambelar, para fazer campanha eleitoral governista fora do período que a lei reserva para a campanha eleitoral. A propaganda governista é a campanha eleitoral ininterrupta. Graças a ela, os governantes têm muito mais exposição e chance de promover a si mesmos do que aqueles que militam na oposição. A propaganda governista é hoje uma forma de combate aberto contra o princípio democrático da alternância de poder.

Ah, sim, há ainda o governo federal. Aí, as cifras são mastodônticas. Para que o estimado leitor tenha uma ideia menos vaga do que a palavra mastodôntica está fazendo aqui, digamos o seguinte: no ano de 2009, apenas no ano de 2009, o governo federal jogou nada menos que R$ 1,67 bilhão nas campanhas dos ministérios, da Presidência da República e de suas estatais, segundo dados da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Naquele mesmo ano, o total do mercado anunciante no Brasil, segundo o Projeto Intermeios, ficou na casa dos R$ 22,3 bilhões. O governo federal, há tempos, é um dos maiores anunciantes do mercado brasileiro. E que mercadoria ele vende? A sua própria imagem.

Assim é o Brasil, um país em que os governantes usam o dinheiro de todos para promover as causas partidárias de uns poucos – quanto aos governados, eles até que não acreditam muito na lorota governista, mas dão de ombros, deixam pra lá.

Feliz 2012!

É jornalista e professor da ESPM e da ECA-USP

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