Os loucos do link

Por Paulo Roberto Pires
BLOG DO IMS

Nem quinze anos de análise conseguiram resumir mais exemplarmente minhas fobias do que a frase “o mundo anotado”. Trata-se do mission statement do genius, um site que pretende isso mesmo, criar notas explicativas para o que se canta, escreve ou diz por aí. É o inferno da nota de pé de página, da bula cultural, da explicação fascinada por si mesma. E uma espécie de paraíso nerd, ponto de encontro de gente que, como aquele personagem da Praça da Alegria, gosta de tudo beeeem explicadinho, nos seus mííííííínimos detalhes.

[Se este texto tivesse sido publicado no genius, você já veria iluminado no parágrafo anterior “Praça da Alegria” (com a devida história do velho programa humorístico) e a descrição do seu Explicadinho (personagem de Rony Rios, o ator que fazia a Velha Surda, oppppps, olha eu aqui me explicando)]

O site existe desde 2009 e nasceu para mapear, colaborativamente, as referências das longas letras de rap – que, ao que parece, precisam mais de explicação do que letras do Djavan. Mas o negócio prosperou e, com uma injeção de módicos 40 milhões de dólares, desde o ano passado o pessoal passou a anotar literatura, geografia, cenas de filme, discursos de políticos. É o pesadelo da erudição, em si mesma uma tragédia, repetido como farsa nerd.

Sobre as anotações do rap, não tenho interesse e muito menos condições para fazer qualquer comentário. Numa busca por Kanye West, recebo 4.424 ocorrências, de simples menções às letras anotadas. Descobri que a turma lá anota até discurso de agradecimento do senhor Kardashian.

Quando o assunto é literatura, o site ganha em ironia – involuntária, diga-se. Na prática, acaba sendo uma versão decuplicada das edições anotadas, gênero nobre e tradicional, em geral dedicado a clássicos, que cerca o texto original de comentários feitos por um especialista que, menos por palpite do que por evidências concretas, busca elucidar as referências que de alguma forma ampliem a contextualização da obra. Na versão digital, clicou no sublinhado amarelo, ganhou uma nota. Que nem sempre vale o esforço de arrastar o cursor até lá.

Em artigo na New Republic, Evan Kindley separa o joio do trigo com um exemplo bem concreto. Uma parte significativa das anotações feitas pelos usuários do genius às Alices de Lewis Carroll recorre à clássica edição comentada de Martin Gardner, publicada no Brasil pela Zahar. Ou seja, apesar de não ser um critério deste e de outros sites colaborativos, a relevância da informação é o que, no final, decide o jogo.

Bem faz Margaret Atwood, que resolveu “comentar” um capítulo de seu novo livro, The heart goes last, ao modo do genius. “Pixel Dust é o nome do bar”, escreve ela. E anota: “Existe um bar com esse nome numa região de novas empresas digitais? Se não, deveriam abrir um”. E, mais adiante: “só os ricos têm condições de dispor de policia”. Comentário: “o que infelizmente é verdade em diversas partes do mundo”. Nessa batida, parece mostrar a total inutilidade de grande parte das tais anotações.

O genius já está chegando ao Brasil. Por enquanto, o forte é, como no original, as anotações às letras de rap brasileiro – e, em menor escala, traduções de artistas estrangeiros. Vamos esperar que deve vir por aí literatura e, fica a dica, rótulos de cervejas artesanais, grãos de café selecionados e outros ímãs de nerdice.

Gostaria, no entanto, de sugerir um novo lema. No lugar de “o mundo anotado”, o genius brasileiro poderia citar Millôr Fernandes: “Chato é o cara que conta tudo tintim e depois entra em detalhes”.

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