Os medalhões da música brasileira deviam gravar mais!

No sábado passado estive em Fortaleza para participar da festa de 10 anos do Festival Ponto CE, iniciativa linda dentre várias outras que acontecessem no cenário alternativo brasileiro e que muito nos orgulha de fazer parte. Fui junto com o Camarones Orquestra Guitarrística, uma das bandas que toco.

Estrutura ótima, lugar sensacional e do poder público chamado Dragão do Mar (não tem nada nem parecido em Natal) e tudo corria muito bem. Show legais do Rivera (banda cearenense que já tocou aqui no MADA) e Mafalda Morfina (também do Ceará) e eis que dá a hora da atração mais aguardada da noite: o Pato Fu.

Sou fã de tudo da banda, gosto bastante do que eles produzem e me posicionei num lugar legal para apreciar o show. Um tremendo desfile de hits bombardeou a plateia, mas o que mais me pegou foi a quantidade de músicas novas – inéditas para a maioria da audiência – que eles colocaram no seu show. Contei sete ao todo, quase um disco completo.

Que banda corajosa, depois de 24 anos de carreira, 12 anos sem um show autoral em Fortaleza, chega aqui e não abre mão de mostrar para o público que continua em movimento e principalmente com prazer de mostrar um trabalho recente, em vez de se deitar só em músicas conhecidas. Automaticamente me veio à cabeça como faz falta discos inéditos de alguns medalhões da MPB.

Durante o carnaval de Natal vi dois deles para dar como exemplo: Alceu Valença e Moraes Moreira. Curti muito o show do Alceu, muitos anos que não o via ao vivo e ele continua muito poderoso. O show do Moraes Moreira já achei menos inspirado (ou não prestei tanta atenção). Fato é que ambos não têm há muito tempo nada de novo para mostrar e fico me perguntando o que houve. Cansaço? Já se sentiram satisfeitos com o que já fizeram? Gravavam porque tinha dinheiro das gravadoras e deixaram para lá quando a fonte secou?

Seria lindo ver os grandes medalhões da música brasileira com discos inéditos de dois em dois anos pelo menos. Acho que eles ainda têm muito a dizer e muita moral para se arriscar. Sem contar que aproximaria a turma mais jovem desses artistas, caso recente da Gal Costa e da Elza Soares, que se reconectaram com parte mais jovem do público graças a trabalhos recentes elogiados e vencedores.

Música é movimento, e essa geração que já acontecia antes da internet teria muito a contribuir para as novas bandas que estão chegando. Até os “feats” (aquelas participações especiais em que um artista chama outro para dividir uma música) são raros. Uma pena, um disco novo só de frevo do Alceu Valença em pleno 2016 convidando toda a cena olindense para dividir composições cairia muito bem, né não?

Eu ia amar.

Músico, produtor cultural, promotor do Festival Dosol e pronto para contar as vivências intensas da música de Natal e do mundo, porque viver é uma trilha sonora ininterrupta. [ Ver todos os artigos ]

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 5 de Maio de 2016 17:26

    O Brasil e o mundo estão carentes de música de alta qualidade. Refiro-me principalmente ao que diz respeito a inovação. Tem alguns, que hoje, ainda conseguem produzir um excelente trabalho, e isso, sempre haverá…. Mas, com a qualidade, a criatividade, a genialidade e principalmente a magia dos sons dos anos 50, 60, 70 até mesmo algumas produções no final dos anos 90 (que já mostrava a falta de criatividade e repertório), pode até voltar a acontecer, é claro… Só que eu acho muito difícil.

  2. ANDERSON CLEITON RISUENHO DE FREITAS 10 de Maio de 2016 16:07

    discordo, mas respeito sua opinião anchieta! 🙂

  3. Anchieta Rolim 11 de Maio de 2016 15:06

    Anderson, o respeito é recíproco, meu irmão! E parabéns pelo trabalho que vens desenvolvendo… estou antenado… Abraços!!!

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