Os mestres reencontrados

Por Lívio Oliveira

O tempo é mesmo pouco pra ir relatando tudo o que me interessa. Tudo parte de uma única frase e a gente vai puxando o fio da memória e dos quereres. Eu já disse noutro canto, noutro cantar tra(du)zido em “Telha Crua”: sirvo/ a palavra/ que me serve. Ela, a palavra, é que me serve e salva. Uma aqui. Outra acolá. Vou derramando essas ajuntadas, em observações de bloquinho já rechonchudo, de tanto que noto e anoto por aí. Meus garranchos reunidos, impressões virtuais ou reais de tudinada.

Já tendo alcançado o primeiro parágrafo, é hora de anunciar algum tema, que já vai tarde da noite enquanto escrevinho, escrevivendo. E brindo. E vinho. São uvas, as tintas, que enchem a carga da minha “Bic” apontada ao papel branco. Aponto. Desaponto. Desacordo. Acordo com as horas. E desembesto, escrevendo aos solavancos o-que-nem-sei-o-quê.

Nesse emaranhado de informações que nos chegam todo dia, toda noite, nas redes sociais e nos jornais – que ainda teimam alguns em ser impressos, graças! – escolho e recolho o que me basta na minha rede de dormir e balançar, pois tem que haver o balanço e o recorte preciso, para que não desborde o olho e o ouvido daquilo que deve ser objeto de atenção. Não olvido. Dou a atenção que os mestres me exigem. E os mestres reencontro no caminho, ficando feliz demais. Reencontrar gente e saberes que estiveram nos dias essenciais de minha formação. Parece coincidência, mas é no refluxo da história que revejo os grandes Antenor Laurentino Ramos, Manoel Marques da Silva Filho, Juarez Alves Gomes.

Antenor Laurentino Ramos tem marcado há décadas a vida dos estudantes de Natal, sendo um dos nossos mais importantes educadores, dedicando-se de forma apaixonada ao ensino das línguas portuguesa e francesa. Com Antenor tive as minhas primeiras lições de Francês na Escola Estadual Sebastião Fernandes de Oliveira, à época sendo indicado por ele para receber uma bolsa e ingressar na Alliance Française de Natal. Algum tempo depois, cheguei a compor o Comitê Diretor daquela prestigiada entidade de ensino e cultura, tudo em face da francofilia que herdei de Antenor, abeberando-me de suas fortes lições intelectuais e de vida, hoje sendo renovadas nos cafés casuais.

Antenor é também memorialista e dele recebi “Memorial da Anta Esfolada – Nova Cruz no Espaço e no Tempo”, Feedback, 2014. Nessa obra, homenageia a “Rainha do Agreste”, sua terra adotiva (é paraibano por nascimento). Faço a leitura embevecido com as tantas narrativas curiosas e bem engendradas no resgate histórico e memorialístico que o mestre nos traz. A terra e seu povo. Ele nos mostra tudo o que há.

Outro mestre e amigo que me brinda com palavras bem encadernadas é o contista de escol Manoel Marques da Silva Filho (FOTO), figura dileta que fez a minha apresentação ao mundo das letras literárias potiguares quando me guiou até diante do saudoso poeta Luís Carlos Guimarães e do então editor do jornal literário “O GALO”, escritor Nelson Patriota, culminando esse encontro com a primeira publicação de poemas meus. Manoel agora me presenteia com um relato romanceado (já na sua segunda edição) acerca do seu avô paterno, escrito por Luís G. de Oliveira: “A Tragédia do Major”, publicação da ONG Saci, 2015. As leituras vão prosseguindo, a tempo e a modo, dentro dessa minha realidade assoberbada de prazos diários. Lacunas surgem. Colmato aos poucos.

Outro mestre (este pode também ser chamado de Sensei) que reencontro nestes tempos corridos é o grande precursor do Karatê Shotokan no Rio Grande do Norte, Juarez Alves Gomes. Muitos certamente já ouviram falar dele, mais conhecido como o mítico Mestre Alves, tremendo lutador-desportista, legendário instrutor da arte marcial. Tenho conversado, em meio aos treinos que nos comanda, acerca da possibilidade de ser escrita a história do Karatê Shotokan em Natal e no Estado. Ficou de pensar. Tem analisado isso. E vou ouvindo os relatos. Material é que não falta. Inclusive, iconográfico. E muito boa memória, porque os bons mestres sempre a detêm e cultivam. Oss!

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 2 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 2 de julho de 2015 9:11

    Pretendo, Thiago, fazer uma reunião dos meus textos de imprensa. Logo que puder.

  2. thiago gonzaga 1 de julho de 2015 19:21

    Lívio Oliveira, esse resgate de nomes é muito importante para o futuro, seu texto , inclusive, merecia sair em material impresso. Dia desses, Manoel Onofre Jr escreveu algo parecido( o texto está inédito ainda), falando sobre os “mestres” da geração dele: Câmara Cascudo, Edgar Barbosa…

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