Os mortos enterram os vivos

Enviado por e-mail pelo tradutor Chico Guedes, atendendo a nosso pedido:

Por François Silvestre
No Novo Jornal

Na abertura do “Dezoito Brumário” Karl Marx diz que a tradição de todas as gerações dos mortos oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. É aí também que ele completa a assertiva hegeliana da repetição da história. Ensina que ao repetir-se, a história o faz como tragédia no primeiro evento e farsa no segundo. E enumera alguns exemplos. As comunas de Paris. Robespierre por Louis Blanc; Napoleão por Luiz Bonaparte.

Mas não é sobre a genialidade de Marx ou a beleza desse seu livro que vou tratar neste curto texto.

Este artigo é uma “homenagem” à hipocrisia. Às carpideiras que estão sempre de lenço a esfregar os olhos lacrimosos nos velórios dos célebres. Mesmo que se mantenham silenciosos ou ausentes durante a vida do defunto ilustre.

Que Saramago descanse em paz. Lê-lo é a melhor maneira de fugir dos textos e exegeses de seus mais novos idólatras. Dona Militana definiu com beleza e simplicidade esse fenômeno. “Vez ou outra aparece um monte de gente. Depois somem todos por muito tempo”. Seu corpo testemunhará sua verdade. Depois a esquecerão, como fizeram em vida.

Quando tomei posse na presidência da FJA, descobri que Manoel Marinheiro estava morrendo à míngua. Seu pedido: “Quero renascer o meu Boi”. Determinei que ele fosse incluído em todas as festas de inaugurações ou eventos culturais da Fundação. O pagamento foi o brilho dos seus olhos, dirigindo o “Boi” numa cadeira de rodas. Depois de morto, choveram homenagens e salamaleques.

Chico Daniel me procurou e disse que estava passando fome. Fiz a mesma coisa. Seus bonecos sacudiram a poeira e voltaram às empanadas pelo interior a fora. Seu pedido: “Minha comida tem de ser mole, pois meus dentes são de enfeite”. Segundo ele, não conseguia sequer ser recebido por políticos ou dirigentes culturais.

Depois de morto, o oportunismo político e a nulidade cultural derreteram-se em homenagens ao “grande” Chico Daniel. Grande agora, pois seus pedidos não perturbariam mais. E puseram seu nome no Teatro de Cultura Popular. Uma desomenagem dupla. Explico: A cultura popular recebeu a homenagem que serve a todos. Onde se inclui Chico Daniel. Repartiram a homenagem, que não colou. Ninguém chama o teatrinho pelo nome do calungueiro. Merecedor de todas as homenagens, foi usado para desomenagear a cultura da qual ele sempre fez parte. Os mesmos que nem o recebiam na sua vida de atropelos e pobreza. Talvez nunca tenham visto uma apresentação dos seus bonecos.

É sempre assim. Não tem jeito. A hipocrisia já foi definida como a deferência que o vício presta à virtude. Mas o vício é honesto. A virtude nem sempre.

Ou o jeito é voltar aos distantes. Reler Marx, Engels, Virgílio, Ovídio, Milton, Camões, Cervantes, Chaucer, Platão, Dante.

O “Inferno” de Dante no portal de entrada:

Lasciate ogni esperanza voi ch’entrate. Té mais.

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