Os muito exibidos que me desculpem

Mas o retraimento é fundamental. Aprendi com a lua, mais do que se aprende com o Eclesiastes: há dias de minguar, dias de habitar-se. São dias solenes, dias de ritual e névoa. Dias que se fixam na gente por um tempo. Esses dias, a gente reconhece desde cedo: a gente se reconhece neles, nós, os retraídos. Esses são dias plenos de descobertas. O retraimento é bom para isto: descobrir. Essa é uma palavra de nobreza.

São muitos os dias de retrair-se. Quando a gente não se suporta a si mesmo nos outros, os nossos espelhos. A gente pensa que eles são o inferno, os outros. Ledo engano! O inferno mesmo é dentro da gente, deriva da gente.

Esses dias de minguar são aqueles nos quais a gente precisa deixar de exercer papéis, quando a gente sente a necessidade de exercer-se um pouco.

Os dias de retraimento são necessários quando há verdades embrionárias, aquelas verdades ainda em formação. Ai, como é bom deixar de pensar coisas, de emitir opiniões, de achar coisas. Ai, como é bom deixar que as coisas mesmas se achem. Afirmações veementes, absolutas, podem ser boas para o ego e outros demônios, mas têm sempre um quê de aprisionamento.

Os dias de retraimento, esses têm gosto de liberdade. Têm gosto da mais sábia desistência: a desistência de mudar o mundo. Têm gosto de compreensão: a de que, para mudar-se a si mesmo, é preciso esforço, concentração, vontade e tempo.

E tempo… Tem horas em que pensamos que o tempo até nem existe, de tanto que ele nos falta. Para nos trazer de volta o tempo perdido, há os dias de ficar minguante. De aprender tanto com os acontecimentos, a ponto de pensar que os próprios acontecimentos têm o propósito de nos ensinar. Evidentemente, não têm. Os acontecimentos não têm qualquer propósito. Nem a vida. Nós é que temos propósitos aos montes.
A contração é uma forma de apaziguar-se. Precária paz, eu bem o sei, porque a nossa sempiterna fragmentação não nos deixa iludirmo-nos com a completude. Em qualquer situação na qual estejamos prestes a nos sentirmos completos, vem um pudor e nos assalta: não, jamais seremos um todo. Somos partidos, de raiz.

Mas, mesmo precária, o ato de minguar é uma paz. Uma paz até com as esperas. Uma paz, ou uma trégua, com esse deus escorregadio chamado felicidade. Uma paz com a vulnerabilidade, essa deusa súbita e surpreendente.

Com quem compartilhar os meus nadas? Comigo mesma, nos meus dias de minguar. Assim a lua compartilha crateras. Também as temos nós, pois não?

Para quem não tem a benção de se adaptar facilmente ao mundo, os dias de minguar se derramam em forma de outras bênçãos. Nos dias minguantes, eu me concedo, eu me concebo, eu me recrio.

Que me desculpem, mas há dias em que é fundamental deixar-se, largar-se, entregar-se fundamente ao ato solitário de ser.

Poeta e cronista. Publicou os livros de poesia O Caos no Corpo, Destempo, e Chuva Ácida, e Uma noite entre mil, textos em prosa. [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Monique de Souza 5 de abril de 2012 2:39

    Adorei o texto…parabéns

  2. Carmen Vasconcelos 16 de fevereiro de 2012 8:10

    Que bom você ter gostado, Anninha. Beijo.

  3. Anninha 15 de fevereiro de 2012 10:39

    Carmen, querida. É como se você tivesse falado por mim! Amei amei. bjss.

  4. Carmen Vasconcelos 1 de fevereiro de 2012 12:07

    Obrigada a você, Sheyla.

  5. Sheyla Azevedo 1 de fevereiro de 2012 10:04

    Que belo texto é esse? Uma identificação com cada expressão, vírgula e, sobretudo, com os silêncios necessários que o texto sugere. Maravilha vir aqui no SP e me deparar com essa pérola (aos poucos). Abração, obrigada pela contribuição para tornar meu dia mais sereno, Sheyla.

  6. Carmen Vasconcelos 1 de fevereiro de 2012 9:03

    Concordo com você, Alice.

  7. Alice N. 31 de janeiro de 2012 19:52

    Ótimo texto para se ler nesta lua que cresce: com sua leitura, chegamos à conclusão: que, depois do silêncio, venha de novo o alarde, depois do apaziguar-se, novamente a guerra! Depois de subir e hibernar no pico da montanha, desçamos ao vale, outra vez!

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