Os neutrinos não tão rápidos

Por Marcelo Gleiser
FSP

A controvérsia sobre o possível erro dos cientistas do Cern nos ensina sobre como funciona a ciência

Depois de muita euforia, especulação e intrigas contra Einstein, saiu o
pré-veredito sobre os neutrinos supostamente mais rápidos do que a luz.
Digo pré-veredito porque existem ainda alguns pontos a ser esclarecidos.
Mas, ao que tudo indica, segundo declaração da última semana de cientistas
do laboratório de física de partículas europeu Cern ligados ao
experimento, a culpa do erro de cerca de 50 bilionésimos de segundo é um
mau contato numa fibra ótica. O princípio base da teoria da relatividade
de Einstein, de que nada pode viajar mais rápido do que a luz, sobreviveu.

No experimento, neutrinos criados no Cern, na Suíça, viajam 730 km através
da crosta terrestre até chocarem-se com os detectores do laboratório em
Gran Sasso (FOTO), na Itália. Os cientistas do experimento Opera, em Gran Sasso,
identificaram dois possíveis efeitos que podem ter causado mudanças no
tempo de viagem dos neutrinos. O primeiro, uma conexão defeituosa entre a
fibra ótica que leva sinais entre o sistema GPS e o relógio-mestre do
detector, pode ter diminuído o tempo de viagem dos neutrinos.

Para complicar, o segundo efeito, um instrumento que opera dentro do
detector e que deveria estar sincronizado com os sinais de GPS, pode
aumentar o tempo de viagem.

Como os dois efeitos agem contrariamente, os cientistas do Cern e da
colaboração Opera estão estudando sua magnitude para então decidir qual
dos dois domina a medida final. Porém, Lucia Votano, diretora do
laboratório Gran Sasso, afirmou que “suspeita principalmente” da fibra
ótica, o que confirmaria a validade da teoria de Einstein. Em maio, os
dois laboratórios vão repetir o experimento usando pulsos de curta duração
com uma precisão bem maior do que a atual. O caso poderá então ser
fechado.

Conforme escrevi aqui no dia 2 de outubro de 2011, “embora o time de
cientistas tenha sido extremamente cauteloso na análise de possíveis erros
sistemáticos, é muito provável que algo tenha-lhes escapado. Talvez no
processo de produção dos neutrinos -o momento em que surgem, talvez na
medida do tempo entre os vários sinais que registram os resultados de
colisões nos computadores, talvez algum efeito geológico ainda
desconhecido. Ou, claro, pode ser que os neutrinos tenham viajado mesmo
algumas dezenas de bilionésimos de segundo mais rápido do que os fótons,
as partículas da luz. Mas não apostaria nisso.”

Continuo não apostando. De todo modo, a controvérsia é extremamente
importante e nos ensina muito sobre como funciona a ciência. Sabendo que
seus resultados aparentemente contrariavam um dos fundamentos da ciência
moderna, os cientistas dos dois laboratórios buscaram diligentemente por
erros em suas medidas e equipamentos para tentar eliminá-los.

Talvez tenham se precipitado ao declarar para o mundo o que tinham achado
antes de confirmar que estavam certos. Porém, agiram com humildade ao
confrontar uma questão de extrema complexidade, pedindo ajuda aos colegas
espalhados pelo mundo. Não há dúvida de que alguns se aproveitarão da
situação e tentarão atacar a credibilidade da ciência. Obviamente, esses
indivíduos não entendem que errar e admitir o erro são passos essenciais
na busca pela verdade.

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em
Hanover (EUA), e autor de “Criação Imperfeita”. Facebook: goo.gl/93dHI

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