Os novos órfãos da informação

Por Carlos Castilho
NO OBSERVATÓRIO DA IMPRENSA

Um programa de televisão chamado O Mundo do Futuro (aqui), disponivel na internet, é uma metáfora do universo informativo que o futuro nos reserva. O programa é conduzido por um engenheiro australiano em prisão domiciliar na Inglaterra, acusado de publicar segredos do governo norte-americano; numa emissora localizada em lugar não identificado na Rússia; e que na sua primeira edição teve como entrevistado um líder palestino que vive na clandestinidade no Líbano, acusado por Israel de ser um cérebro do terrorismo árabe.

Impossível ser mais heterodoxo em matéria de informação jornalística. Quase todos os parâmetros tradicionais foram quebrados na mais recente iniciativa do engenheiro Julian Assange, criador do controvertido site Wikileaks. que está fora do ar porque suas contas bancárias foram bloqueadas pela justiça.

A primeira coisa que chama a atenção é a queda dos referenciais entre legalidade e ilegalidade. Na Inglaterra, Assange pode ser condenado a 10 anos de cadeia, mas na Rússia ele conta com a simpatia governamental. Ele é um programador de computadores mas age como se fosse jornalista. Ele grava programas desde sua casa para uma emissora que transmite pela internet e ninguém sabe onde fica. E, para terminar, conversa durante quase uma hora com Hassan Nasrallah, líder da organização Hezbollah, que vive em algum lugar do Líbano.

A entrevista, em si, não contém nenhuma revelação espetacular, mas impressiona pelo fato de que quase tudo nela foge aos parâmetros que marcam a nossa cultura informativa. A sensação que se tem é de que estamos num terreno desconhecido, sem referências conhecidas para avaliar credibilidade e veracidade. Tudo é fluído e não está vinculado a estruturas materiais como endereços físicos e garantias legais.

Fica a ideia de que teremos que descobrir por conta própria o que é verossímil ou não, o que é relevante e o que não é, se devemos crer ou descrer do que nos é apresentado. Em última análise, é uma espécie de orfandade informativa, em que estamos entregues à própria sorte em meio à avalancha noticiosa gerada pela digitalização e pela computação.

O programa O Mundo do Futuro não é um caso isolado. Há centenas de vídeos similares na internet. O que ele nos mostra é que o fenômeno da informação desprovida de referenciais tradicionais está em expansão e não vai tardar muito para que se torne majoritário. Estamos saindo de um modelo para ingressar noutro, que ainda é uma grande incógnita, em meio a uma cacofonia informativa inédita na história contemporânea..

Com tantas dúvidas, uma certeza começa a ganhar corpo. Nós teremos que aumentar o número de horas dedicadas à avaliação das informações que recebemos. Vai dar mais trabalho separar o joio do trigo em matéria de noticiário, mas também não há dúvida de que isto nos tornará muito mais preparados para lidar com a avalancha noticiosa. Não há escapatória, porque a alternativa seria nos transformar em párias ou ermitões informativos, uma hipótese que pode ser viável para alguns indivíduos, mas jamais poderá ser uma panacéia para a sociedade.

Comentários

Há 3 comentários para esta postagem
  1. Lívio Oliveira 28 de abril de 2012 9:49

    No lugar de “cacofonia informativa”, prefiro “algaravia informativa”, uma expressão que – se não for de ninguém – é minha, agora.

    Patenteada, viu Jarbas? (rs).

    E “algaravia” vem do árabe…

  2. Anchieta Rolim 28 de abril de 2012 8:20

    …qual é a verdade? se vivemos uma mentira…

  3. Jota Mombaça 28 de abril de 2012 7:41

    [tudo que é sólido se desmancha no ar]

    É o império da verdade jornalística que ameaça cair – a instituição responsável por legar as agendas e conteúdos da realidade foi demasiado exposta à sua própria fragilidade, e por isso mesmo ruiu. O jornalismo, tal como o concebíamos, não pode mais encontrar base que o sustente num regime em que as coisas não cessam de aparecer e desaparecer a todo momento. Se outrora, ao ligarmos a tevê para um noticiário, contávamos com o suposto compromisso com a verdade jornalística, a esta altura tudo o que temos é uma série de ficções sendo produzidas, em bases hegemônicas e contra-hegemônicas – o trânsito de informações produz tempestades micropolíticas. Não se trata de saber ler o que é real e o que é falso. A mais ninguém cabe o domínio da verdade, tudo foi para o campo da ficção. Mas o que nos trouxe até aqui senão ficções que tinham peso de verdade? A verdade, ela mesma, nunca existiu, embora ao longo da história da humanidade tenha sido usada como dispositivo de dominação do homem pelo próprio homem. A internet, enquanto mantém abertas as brechas da livre expressão, contém em si a potência de desagregação de qualquer verdade, fazendo emergir as versões derrotadas da história que os livros sempre fizeram calar. No tête-à-tête, estamos de pé sobre o nada. Cabe-nos, a todo instante, selecionar as ficções que comporão nosso mundo, o de cada um de nós, sabendo que nossos constructos tão logo sejam construídos ameaçam também se dissolver, e assim… Mas é preciso reconhecer também que essa liquidez da verdade não nos exime dos controles, pelo contrário, engendra novos, ainda mais sutis e profundos. A dominação é líquida.

    [a resistência tem de ser líquida também]

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