“Os olhos comovem mundos”, de Felipe Nunes

oferecemos aos nossos olhos, membranas intactas do embrião onde a poesia se gesta. nada mais consagrador que o confio das palavras não ditas. na qualidade de poetas, a viagem é motivo para jogarmos nossos corpos no mundo à procura de adjetivos, e por mais que pareçamos perdidos na estrada neblinada de barro, todo lugar é tocado pelos dedos de esù a escrever nossos caminhos. lavamos nossos olhos no barro das águas do gargalheiras em busca das pedras brilhantes descansadas nas veredas. cabras, gados e tetéus demoram a nossa volta para nos lembrar que é preciso abandonar a pressa. a baixa umidade explode os nossos lábios, valorando o tênue líquido da saliva revelado pelo nosso beijo. por onde passamos, tomamos as palavras estendidas nos varais dos quintais. daí, herdamos os sulcos que recama a nossa pele. 

Fotografia: Açude Gargalheiras, Acari (RN), de Helena Antunes

Historiador, artista gráfico, músico e poeta [ Ver todos os artigos ]

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