Os parlamentares brasileiros não são extraterrestres

Por Tácito Costa

Não escrevi antes porque não tive tempo. Mas entre uma tarefa e outra li muita coisa sobre a votação da abertura do ilegítimo processo de impeachment contra Dilma no domingo. E quase todos os textos se referiam à mediocridade, hipocrisia, baboseiras e maus tratos à língua portuguesa, entre outras tantas qualidades, dos nossos deputados.

Acabou sendo bom não ter escrito antes. Sobretudo porque hoje li sobre uma pesquisa do Datafolha, mostrando que os eleitores são mais conservadores do que os parlamentares (leia no final). E isso corrobora o que vinha pensando desde domingo.

Temos nos parlamentos brasileiros, com exceções que não preciso citar por serem conhecidas, a representação fiel do pensamento médio dos eleitores. Esses parlamentares não são extraterrestres. E nem foram eleitos por marcianos.

Nossa sociedade é violenta, homofóbica, racista, machista, corrupta, insensível socialmente e desdenha dos direitos humanos. Como isso não iria se refletir nos parlamentos? No Congresso temos uma cópia deste vasto mundo que fica do lado de cá, fora das colunas desenhadas por Niemyer.

Por isso, eu fiquei mesmo espantado foi com a surpresa de meio mundo acerca do perfil dos parlamentares. Não é possível que alguém medianamente informado não tivesse idéia da cabeça desse pessoal.

Ou alguém sonhava que a representação federal seria melhor que as municipal e estadual, que conhecemos mais de perto? Olhem a composição da nossa Câmara Municipal. Vejam o que disse o vereador Luiz Almir sobre os professores há poucos dias.

Infelizmente, nossas representações municipais, estaduais e federais são do mesmo nível. Eu dou uma pela outra e não quero troco.

Suponho que as cenas do domingo inesquecível tenham chocado mais porque pela primeira vez tivemos um retrato posado, que pegou a todos, mostrando em sua inteireza, em sua crueza, a verdadeira cara do parlamento brasileiro.

É bom que se frise. O grosso da população se identifica com grupos de extermínio, fascistas (Bolsonaro, por exemplo), justiceiros, linchadores e agressores de mulheres e homossexuais e com máximas tipo “bandido bom é bandido morto”. Pessoas que podem ser encontrados nos nossos locais de trabalho, entre conhecidos, o dono do mercadinho do bairro, do restaurante que frequentamos, e em grupos de WhatsApp. A não ser que vocês sejam alienígenas ou imaginem que estão vivendo em outro planeta porque no meu esses reacionários, analfabetos políticos e incultos estão muito presentes.

Abaixo o texto que falei no início.

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ANÁLISE

Votação revela mais sobre eleitores do que sobre deputados

Alessandro Janoni
DIRETOR DE PESQUISAS DO DATAFOLHA

O Datafolha nem precisou tabular –menções a Deus e à família dominaram ostensivamente a votação pela abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados no último domingo (17).
Despreocupados em alimentar a propaganda governista sobre golpe de Estado, já que os dois temas, associados à liberdade, pautaram marchas por ações anticomunistas ao longo de março de 1964, ou em chocar determinados segmentos sociais, os parlamentares tentavam adequar o discurso ao perfil do eleitor.
O brasileiro tende a ser mais conservador em códigos morais do que deputados e senadores. Pesquisa do Datafolha sobre o posicionamento ideológico da população em contraste com o dos parlamentares, realizadas em 2014 e 2015, traziam contrastes importantes.
O cidadão tende à direita em variáveis de comportamento –55% contra 17% entre os parlamentares– e à esquerda em aspectos econômicos –43% contra 32%. O Congresso fica mais à esquerda em valores e mais à direita economicamente.
Na matriz de frases que gera essa classificação, os dois universos concordam majoritariamente com a frase “Acreditar em Deus torna as pessoas melhores”, mas a opinião é muito mais frequente entre representados (86%) do que entre representantes (67%), mesmo com a participação de evangélicos entre os congressistas ser o dobro da observada na população de um modo geral.
Em alguns estratos da população, como os menos escolarizados e de menor renda, a fé alcança quase a totalidade do segmento. A conclusão justifica a ironia do pedido de Eduardo Cunha (PMDB), presidente da Câmara, réu na Lava Jato, antes de revelar seu voto: “Que Deus tenha misericórdia desta nação”.
Ao citarem a família, mesmo na confusão entre as esferas pública e privada, tão presente nas raízes da história política brasileira, os deputados mais uma vez foram eficientes na comunicação –nenhuma outra instituição é tão valorizada no país.
Família supera estudo, religião e trabalho. Nos dossiês que o Datafolha produziu sobre o tema, a taxa de importância máxima atribuída ao tópico cresceu 25 pontos percentuais em 18 anos, enquanto outras instituições tradicionais, como trabalho e religião, não evoluíram tanto.
Mesmo em segmentos que geralmente apresentam contrastes, como os jovens, o assunto ganhou espaço.
Entre os que tinham 16 e 24 anos em 2008, por exemplo, 82% consideravam a família como algo muito importante para suas vidas, taxa que subiu para 87% em 2015.
Como parâmetro para a relevância desse resultado, o valor atribuído pelo estrato a sexo e beleza física despencaram 16 e 13 pontos no mesmo período, respectivamente. Sob esse aspecto, faz todo sentido o deputado Eduardo da Fonte (PP-PE) querer que seu filho votasse por ele.
Em um dos capítulos da última temporada de “House of Cards”, o protagonista, o presidente americano Francis Underwood, dispara: “…mas a política deixou de ser só teatro, é puro entretenimento”.
Para os dez segundos de fama a serem utilizados na propaganda eleitoral e garantir o show, os deputados escolheram o personagem mais adaptado à realidade da plateia, anulando, por tempo breve, a crise de representação que marca o país.
Por sua autenticidade, o conflito entre Jean Willys e Jair Bolsonaro torna-se, por incrível que pareça, um símbolo mais honesto do cenário político brasileiro.

Comments

There are 3 comments for this article
  1. Anchieta Rolim 19 de Abril de 2016 19:35

    Um País onde defensores de ditadores e assassinos, representam uma parte da população e elogia um torturador ao vivo para todo o mundo ver e ouvir, e mesmo assim, ainda segue impune… Este País, realmente precisa urgentemente de uma reforma política, ética e moral. É triste termos que passar por isso.

  2. wallace costa 20 de Abril de 2016 7:32

    Está comprovado que nunca seremos bem representados no regime presidencialista.

  3. José Saddock 21 de Abril de 2016 11:11

    Como sempre, mais um bom artigo, Tácito… Por oportuno, e para sair do sério, no domingo da votação perguntaram a um pescador: – Você prefere votar no Cunha ou ser castrado? Ele respondeu: – Prefiro o mar, pois tem LULA lá… rsssss Grande abraço, amigo, e bom feriado.

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