Os prêmios de Thomas Bernhard

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JOÃO PEREIRA COUTINHO
FOLHA DE SÃO PAULO

“UM CONSELHO para jovens artistas ou escritores: tenham prazer no vosso trabalho e evitem ler o que outros escrevem a vosso respeito. Verdade que o conselho não é meu. Pertence a Woody Allen e está em “Conversas com Woody Allen” (Cosac Naify), livro de Eric Lax com 36 anos de entrevistas lá dentro. Existe espaço para tudo: filmes, roteiros, atores. Música, cidades, outros diretores.

Mas o melhor do livro está nas banalidades: confissões pessoais sobre a vida, o trabalho, as paixões. Arrisco dizer que o melhor do cinema de Woody também está nessas banalidades. Na forma como resgatam os seus personagens da “náusea de mortalidade” que paira sobre eles. Que paira sobre nós.

Tento seguir o conselho. De outra forma, seria impossível continuar. Retirar prazer do trabalho, e sobretudo da escrita, não é apenas aconselhável. No meu caso, é vital: escrever já é solidão que baste. Alienamos muito. Alienamos muitos. Se não existe prazer no ato, seremos ainda mais cadáveres. E ainda menos adiados. Fernando Pessoa “dixit”.

E não ler o que os outros escrevem sobre nós também se justifica: nos primeiros anos de ofício, confesso que cruzava a linha e espreitava pelo buraco da fechadura. Via o que não queria. Ouvia o que não podia. E depois, como certas vacas na pastagem, ficava a ruminar sobre o assunto. Era uma perda de tempo. Era uma perda de energia. Tempo e energia: haverá palavras mais importantes para quem escreve?

Alguns dirão: os prêmios. Como se os prêmios fossem a verdadeira justificação de todo o resto. Esses crentes na bondade alheia devem ler a primeira obra póstuma de Thomas Bernhard (1931-1989).

Intitula-se “Os Meus Prêmios”, foi traduzida e publicada em Portugal (por José Palma Caetano e pela editora Quetzal, respectivamente) e é apenas isso: uma listagem comentada de alguns prêmios que Thomas Bernhard recebeu na sua curta e polêmica carreira.

Li a obra com um sorriso de empatia. Ri muito. Concordei “idem”. Thomas Bernhard, para quem a beleza ordeira da Áustria apenas iludia o seu caráter maligno e demencial (“uma mistura de catolicismo e nacional-socialismo”, dizia ele), tem poucas ilusões. Prêmios? Valem pelo dinheiro. Compramos um carro, viajamos, substituímos a madeira podre das janelas de casa. Não servem para mais nada e, sobretudo, não expressam mais nada.

Em descrições plenas de um humor seco e repetitivo (a marca essencial de Bernhard), lá encontramos o autor em calvário clássico. Primeiro, a notícia de que venceu um galardão qualquer. Depois, os preparativos para o receber: a procura de um terno decente; a elaboração de um discurso que não seja completamente vácuo ou inane; o nervosismo de falar em público.
E quando o dia chega, chega também a cerimônia, povoada por políticos analfabetos que, logicamente, não conhecem o escritor e não conhecem um único livro. Pior: em certos casos, citam obras que ele não escreveu. Ou então trocam-lhe o nome. Ou o sexo (“Parabéns à sra. Bernhard” etc. etc.). O escritor, com verdadeiro espírito estoico, vai repetindo o seu mantra: “O cheque, o cheque, o meu reino por um cheque”.

A cerimônia termina. Ele regressa à casa. Honrado ou desonrado? Dúvida absurda: os prêmios só honram verdadeiramente quem os concede. “Conceder”: até a natureza displicente do verbo diz tudo.

Mas o pior dos prêmios não acontece apenas quando os ganhamos. Bernhard explica, com detalhes, o embaraço de os atribuir. Ele foi jurado. Ele reuniu-se com outros jurados em salas privadas. Ele sugeriu nomes. Ele ouviu sugestões de nomes. Mas ouviu também comentários jocosos, e desagradáveis, e por vezes abertamente antissemitas sobre os escritores a concurso. Ele presenciou o impasse em que os júris literários tantas vezes caem. E ele sabe que resolver os impasses passa pela escolha de alguém fora do baralho. O mérito como arbitrariedade. Poderia ser de outra forma?

Provavelmente não. E talvez por isso o próprio tenha deixado de os receber. Inevitável. No livro, lemos a curta alocução de Bernhard quando a Áustria lhe atribuiu o Prêmio Nacional de Literatura em 1967. O discurso termina assim: “Não temos de nos envergonhar, mas também não somos nada e não merecemos senão o caos”.

O ministro da Cultura e seus acólitos não gostaram e saíram imediatamente do salão. Os jornais do dia seguinte, furibundos, crucificaram o abuso. De todos os prêmios que Bernhard ganhou, haverá algum mais valioso do que esse?”

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