Os que colam e copiam

Por Affonso Romano de Sant’Anna
NO ESTADO DE MINAS – VIA CONTEÚDO LIVRE

Se alguém disser que uma pedra da rua vale tanto quando um diamante, você vai pensar que ele ou está brincando, ou está louco, ou metendo você numa trapaça. Você sabe que há várias diferenças entre um diamante e uma pedra comum. Sendo raríssimo, o diamante é tão difícil de ser encontrado quanto de ser trabalhado. E tem uma luminosa beleza arduamente burilada.

Na arte, há algum tempo, no entanto, convencionou-se o contrário: que todas as coisas se equivalem: qualquer pedra é um diamante. E acabo de ler reportagem sobre um americano que publicou um livro em que afirma que toda cópia é obra de arte. Assim ele copia páginas do New York Times e diz que a arte do futuro será apenas “mudar as coisas de lugar”.

Se fosse piada, não seria engraçado. Sendo uma proposta teórica, não resiste à análise. Se assim fosse, qualquer motorista ou funcionário das firmas de mudança seria artista. Qualquer pessoa que mudasse uma cadeira de lugar ou mudasse de casa, um grande artista. Dizem que Dorival Caymmi, certa vez, chamou Jorge Amado em sua casa dizendo: “venha, venha ver o que fiz”. Havia mudado a cadeira de balanço de lugar. Era uma lenda sobre a preguiça baiana. Bem, Dorival era artista, não por mudar a cadeira de lugar, mas por causa de suas canções.

No entanto, o tal americano conseguiu espaço na imprensa, vai ter seu livro traduzido em várias línguas, vai ganhar dinheiro, ficar famoso e deixar muita gente confusa. Ele está explorando a ideologia de que qualquer coisa equivale a qualquer coisa. Penso nos milhares de alunos que, nos Estados Unidos, fazem cursos de criação literária (creative writing). Os que tentavam copiar modelos clássicos e não tinham sucesso agora estão autorizados a copiar abertamente. Mas, infelizmente, devo alertar que não terão sucesso. Porque uma das perversões da arte atual é que o “pioneiro”, o “diferente” , o “inventor” é o que conta. É igual ao golpe da “pirâmide”, aquelas correntes que enriquecem os que a iniciam e deixam os outros na mão. Só que, no caso da arte, os que ficaram na mão ficam com a pedra no lugar do diamante e se gabam disso.

Alguém pode dizer: mas os tempos são esses. Olha o cover, o sampling, a paródia, a paráfrase, a apropriação, o luta para acabar com o direito autoral. Estão aí o Google e a cultura da colagem cultural. Tudo isso é verdade. Também é verdade que os porcos comem lavagem, mas nem por isso devo comer essa verdade.

Como era previsível, o americano expertinho (não expert) cita Marcel Duchamp como seu patrono. Esse álibi, como num crime, em vez de o absolver, o incrimina. Primeiro está fazendo algo com 100 anos de atraso. Poderia citar também Borges e o personagem Pierre Menard, que queria escrever Don Quixote outra vez. Borges estava se autoironizando.

Um dos mal-entendidos desse americano, cujo nome me permito não propagandear, é dizer que essa vai ser a “arte do futuro”. As pessoas não estão entendendo o presente, mas ele já loteou o futuro para si. Mais um futurólogo.

Esse mal-entendido tem algo a mais que me fascina. Revela “artistas” que têm um problema edipiano mal resolvido. Diante dos mestres, sentem-se castrados. Daí essa arte de eunucos, de emasculados que nos cerca. Arte dos que fazem do parasitismo consciente um motivo de júbilo.

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