Os “Relatórios” de Palmeira dos Índios

Graciliano Ramos (desenho de Cândido Portinari)
Graciliano Ramos, em desenho de Cândido Portinari.
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Acredito que todos sabem por estas bandas que Graciliano Ramos foi, além de um dos melhores escritores do Brasil, Prefeito da cidade de Palmeira dos Índios (AL). Acho que alguns já conhecem e leram os famosos “Relatórios” que, nessa condição de alcaide, Graciliano enviou ao Governador Álvaro Paes, descrevendo as questões da municipalidade durante a sua gestão, que durou entre meados de 1928 e 1929, beirando o histórico ano de 1930, quando tomaria o poder central no Brasil um célebre inimigo político seu (vide “Memórias do Cárcere”, publicado postumamente em 1953).

Alguns desavisados, quando postos diante do livro que precedeu “Caetés” (que viria ao mundo em 1933 ), buscando adivinhar do que trata o interior não revelado pela capa, devem torcer o nariz, afirmando se tratar de um mero e enfadonho conjunto de relatos burocráticos.

Como diria um amigo meu: ” – Menas a verdade!”

Pra mim, “Relatórios” é uma das melhores e mais saborosas obras literárias do mestre alagoano. É um livro no qual já se expressa  — além da seriedade e probidade do administrador público, rara nos dias atuais —  a linguagem sincera, desassombrada, irreverente, seca, límpida e irônica. Mordaz, mesmo, a mensagem político-administrativa daquele formidável escritor brasileiro.

Não acreditam? Então, leiam os seguintes trechos/passagens (tenho em mãos uma reedição dos “Relatórios” datada de 1994, organizada por Mário Hélio Gomes de Lima para a editora Record, em colaboração com a Fundação de Cultura Cidade do Recife):

“COMEÇOS

O PRINICIPAL, o que sem demora inicial, o de que dependiam todos os outros, segundo creio, foi estabelecer alguma ordem na administração.

Havia em Palmeira dos Índios inúmeros prefeitos: os cobradores de impostos, o Comandante do Destacamento, os soldados, outros que desejassem administrar. Cada pedaço do Município tinha a sua administração particular, com Prefeitos coronéis e Prefeitos inspetores de quarteirões. Os fiscais, esses, resolviam questões de polícia e advogavam.

Para que semelhante anomalia desaparecesse, lutei com tenacidade e encontrei obstáculos dentro da Prefeitura e fora dela – dentro, uma resistência mole, suave, de algodão em rama; fora, uma campanha sorna, oblíqua, carregada de bílis. Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos do Nosso Senhor, que administrava melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro.

Dos funcionários que encontrei em janeiro do ano passado restam poucos. Saíram os que faziam política e os que não faziam coisa nenhuma. Os atuais não se meteram onde não são necessários, cumprem as suas obrigações e, sobretudo, não se enganam em contas. Devo muito a eles.

Não sei se a administração do Município é boa ou ruim. Talvez pudesse ser pior.

(…)

CEMITÉRIO

No cemitério enterrei 189$000 – pagamento ao coveiro e conservação.

(…)

ADMINISTRAÇÃO

A administração municipal absorveu 11:457$497 – vencimentos do Prefeito, de dois secretários (um efetivo, outro aposentado), de dois fiscais, de um servente; impressão de recibos, publicações, assinatura de jornais, livros, objetos necessários à secretaria, telegramas.

Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos, forçados pelos inspetores, que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a a coisa foi feita por ela; comunicam-se datas históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso, todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou uma pedra na rua – um telegrama; porque o deputado federal esticou as canelas – um telegrama. Dispêndio inútil. Toda a gente sabe que isto por aqui vai bem, que o deputado morreu, que nós choramos e que  em 1559 D.Pero Sardinha foi comido pelos Caetés.

(…)

CONCLUSÃO

(…)

Não favoreci ninguém. Devo ter cometido numerosos disparates. Todos os meus erros, porém, foram da inteligência, que é fraca.

Perdi vários amigos, ou indivíduos que possam ter semelhante nome.

Não me fizeram falta.

Há descontentamento. Se a minha estada na Prefeitura por estes dois anos dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos.

Paz e prosperidade.

Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929

Graciliano Ramos.”

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Leram? Viram?

Graciliano era um sujeito especial e raro. Difícil vermos gente desse quilate na Política e nas Letras dos dias atuais. Leitura obrigatória, portanto.

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Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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