Os seis livros que estou sempre lendo (parte 1)

Por Luisa Geisler
BLOG DA COMPANHIA

Chuto que o “hábito de leitura” (muitas aspas) em geral envolve mais de um livro. Pelo menos, das pessoas que conheço e que leem, essa amostra de gente privilegiada. Após cuidadosa análise do meu perfil na rede social Goodreads, comecei a perceber um certo padrão de quais livros eu lia ao mesmo tempo, porque sempre estava lendo mais de um livro ao mesmo tempo. E são seis (mínimo três): a graphic novel, a não ficção, o livro parado, o audiobook, o livro aleatório e o clássico.

Decidi postar a respeito, porque o único lugar onde me deixam fazer pseudoteorias sobre os livros que leio é aqui, no Blog da Companhia.

Obrigada, Blog da Companhia.

Resolvi dividir isso em mais de um post porque não quero ficar correndo e cortando e mudando caracteres. O post de hoje é a introdução às categorias (a seguir) e a categoria clássicos (mais a seguir). Provavelmente, teremos mais dois posts. Talvez mais um só. Talvez nenhum. Provavelmente mais um. A ver.

Vamos às categorias.

6 — A graphic novel.
Tudo que tem figurinhas. Tudo que não entra no tradicional livro cheio de palavras. Eu nem sei a terminologia correta: HQ, graphic novel, livro interativo, livro infantil pop-up que leio pra minha irmã de dois anos.

No momento, é Haarmann, de Peer Meter e Isabel Kreitz (2010, Carlsen Verlag).

5 – A não ficção
O termo é horrível. Mas envolve tudo que não é poesia, nem prosa. É/foi uma leitura particularmente comum na faculdade, em que fui bolsista de pesquisa em economia e, depois, viciada no próprio TCC em antropologia. Muitas vezes misturado com a categoria #4.

No momento, é Pode o subalterno falar?, da Gayatri Chakravorty Spivak (2010, Editora UFMG).

4 — O livro parado
Esse eu já vou voltar a ler, ainda não me esqueci da história, mas devia retomar logo. Está numa espécie de limbo em que eu devia seguir a leitura logo ou recolocar na estante (trilha sonora dramática). Fica numa pilha entre a estante e a escrivaninha.

No momento, é Sábado, do Ian McEwan (2005, Companhia de Bolso).

3 – O audiobook
São livros que deixo em áudio enquanto arrumo as coisas, faço as unhas, cozinho e outras atividades femininas que baseiam minha personalidade. Em geral, precisam ser livros mais conhecidos e best-sellers (sem juízo de valor aqui), de maneira que exista o audiobook. Ou isso, ou são clássicos-clássicos, já disponíveis na internet gravados por vozes de celebridades.

No momento, é Gone Girl, da Gillian Flynn (2012, Random House Audio).

2 — O livro aleatório
O livro por acaso. O livro que alguém me emprestou e que furou a fila. O livro que estava na estante há anos.

No momento, é Respiração artificial, do Ricardo Piglia (2010, Companhia de Bolso). Eu o achei no balaio de uma grande magazine por cinco reais (!) enquanto comprava grafite pré-aula.

1 — O clássico
É o livro que me desafia, de onde roubo ideias. É o livro que rabisco demais. Muitas vezes misturado à categoria #3.

No momento, é A Room of One’s Own, da Virginia Woolf (Penguin Modern Classics, 2002).

Essas categorias se intercruzam e se completam, e nada é muito normativo. Às vezes, tenho três livros aleatórios e nenhum clássico. É a vida, segue em frente, tem outros livros, já diria o meme.

Os clássicos têm importância pra mim porque compõem uma biblioteca que eu mesma construí. Fui criada numa família de classe média educada e leitora, mas não o tipo de leitora que eu me tornei. Não que isso seja ruim (ou bom), mas a primeira edição de Madame Bovary eu comprei aos dezessete anos num sebo. Não quero dizer que sou a pobre menina que juntou o troco do pão pra comprar Dublinenses, mas vocês entenderam.

Conto isso várias vezes, mas aos doze anos, tentei ler Grande Sertão: Veredas. Entendi droga nenhuma (eufemismo). Fui relendo e crescendo com esse livro. A leitura de um clássico não é necessariamente prazerosa como o audiobook, que posso ouvir enquanto faço lasanha. Mas é uma leitura de desvendar e ir encaixando o livro com outras experiências, até formar algo que faça sentido. É esse tipo de satisfação, esse pequeno quebra-cabeça particular. Eventualmente, fiz uma tatuagem de Travessia, um livro que leio anualmente. Sei que nem aos oitenta anos vou entendê-lo totalmente. E que nem aos oitenta vou entendê-lo como o entendi aos trinta.

E esses clássicos — esses que eu estou sempre lendo de fato — são os livros que são só meus.

* * * * *

Luisa Geisler nasceu em Canoas (RS) em 1991. Publicou Contos de mentira (finalista do Jabuti, vencedor do Prêmio SESC de Literatura), Quiçá (finalista do Prêmio Jabuti, do Prêmio São Paulo de Literatura e do Prêmio Machado de Assis, vencedor do Prêmio SESC de Literatura). Seu último livro, Luzes de emergência se acenderão automaticamente, foi publicado pela Alfaguara em 2014. Tem textos publicados da Argentina ao Japão (pelo Atlântico) e acha essa imagem simpática.

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