Os sons e os ecos do Seridó

É sempre um orgulho constatar como têm sido relevantes os papéis cumpridos pela UFRN (e pela sua Escola de Música) no nosso Estado. Orgulho de quem ama essa instituição e tudo o que ela nos dá de produtivo e de edificante. No sábado passado, 06 de junho, mais uma vez confirmei pessoalmente essa que é uma realidade incontestável: a UFRN é, por muitas razões, a instituição mais importante dentro do Rio Grande do Norte. E foi a coisa mais bela o concerto (que teve também caráter didático-pedagógico) da Orquestra Sinfônica da UFRN, em parceria com a Associação Maestro Marciano Ribeiro e Filarmônica da Juventude de Florânia, dentro das solenidades de encerramento do primeiro semestre do Curso Técnico em Música naquela cidade, através do Pronatec.

Imprescindível e precioso o grande trabalho dessa Orquestra capitaneada pelo Maestro André Luiz Muniz Oliveira. Estive presente, com especial alegria, e pude ver como aquela cidade seridoense (Seridó mítico dos meus ancestrais), lugar que já enfrenta sérios problemas de natureza social, ganhou com a presença da Orquestra na cidade. Ver e ouvir, ao término do concerto, aquela gente boa assoviando na rua as peças executadas durante a noite me mostrou que o caminho é mesmo a educação. E a grande arte musical, é claro.

Ter vivenciado, in loco, esse momento educativo-festivo-artístico-cultural em Florânia também me permitiu um link formidável com a minha ancestralidade, numa semana em que eu findava a leitura de um livro importante, não somente para a minha família, mas para o Rio Grande do Norte, por resgatar a história do lendário Joaquim da Virgem (meu bisavô materno), homem que estabeleceu uma verdadeira saga nos tempos áureos do algodão mocó na região seridoense. Trato aqui do livro escrito e recentemente lançado pelo primo Haroldo Pinheiro Borges: “Abrindo a cancela das lembranças: a saga do seridoense Joaquim da Virgem”, Editora Jovens Escribas (selo Bons Costumes), 2015.

O livro é rico em informações acerca desse homem também conhecido como Joaquim Félix dos Garrotes, nascido em 1864 em Acari/RN, tendo falecido em 1932 na Travessa Meira e Sá, Barro Vermelho, Natal, e que foi certamente um dos mais importantes e inteligentes empreendedores do Estado, grande criador de gado e agricultor e maior negociante de algodão de sua época, além de pioneiro em diversos setores, inclusive na introdução da força dos “locomóveis” descaroçadores na indústria algodoeira, substituindo as “bolandeiras” que eram movidas pela força animal.

O biografado também foi um homem ligado às causas judiciais, através de seus conhecimentos de autodidata e rábula operoso. O meu bisavô Joaquim (que vem a ser o trisavô da poeta Carmen Vasconcelos), avô de Haroldo Pinheiro Borges e de minha mãe Ana Maria Araújo de Oliveira (prima legítima de Haroldo), também atuou na vetusta Rua do Comércio, atual Rua Chile, Ribeira, e foi importante exportador de algodão para a Europa, destacadamente Inglaterra, para onde mandou um dos seus filhos (Raymundo Nonato de Araújo, que descobri ser também um apreciador e fomentador da música e de outras artes) para estudar em Liverpool. Posteriormente, Joaquim ainda chegou a realizar negócios nessa área da exportação/importação com os EUA.

Fazendo a leitura desse valioso e oportuno livro de Haroldo, surgiram-me muitas revelações, respostas históricas a dúvidas que eu tinha, mas veio uma maior curiosidade e outras perguntas nasceram em mim, que passei boa parte de minha infância brincando incauto nos açudes e sótãos rangentes das casas das fazendas que Joaquim construiu (destacadamente nas fazendas Poço da Pedra e Cauaçu). Terei, sim, que retornar oportunamente a esse livro e a esse assunto. Evidentemente me será obrigatório voltar a percorrer os caminhos e veredas e ouvir os sons, ecos e até silêncios do vetusto e misterioso Seridó, terra de muitos dos meus ancestrais, que aprendi a amar e a respeitar.

Advogado público e escritor/poeta. Membro da Academia Norte-Rio-Grandense de Letras. [ Ver todos os artigos ]

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