Os velhos e a corrupção

Arte: Lourdes Ferraz

Todo mundo conhece o episódio do Velho do Restelo, personagem no Canto IV d”Os Lusíadas, de Luís de Camões:

Por que de mim te vás, ó filho caro,
A fazer o funéreo enterramento,
Onde sejas de peixes mantimento!

Todo mundo conhece o personagem do Velho, no Pastoril, que, segundo muitos comentaristas, foi a fonte de inspiração para o apresentador Chacrinha em seus antigos programas de auditório.

Eu, também velho, misturarei timbres desses dois iguais para comentar as boas reflexões de Jota Mombaça sobre a indignação retórica da mídia diante da corrupção.

Pois é, a mídia brasileira parece personagem de melodrama mexicano de antigamente (hoje, substituído pelas telenovelas) diante do tema, com ecos de tragédia grega embalsamada – o mote “Ai de mim!” mecanicamente repetido e disponível para compra em caixinha de música.

Um problema foi bem marcado no comentário de Mombaça: até parece que não é com ela, mídia, que essa pobre coitada desempenha apenas o papel de vítima indignada, não de personagem beneficiada, central e ativa.

Como o Capitalismo não é mais criticado desde que os supostos Socialismos saíram de cena (URSS, Iugoslávia & Cia) ou abriram o jogo como Capitalismo de estado (China), dá a impressão de que corrupção é problema de Ética pessoal ausente num mundo de cidadãos probos. Daí para a personalização do problema, do Mensalão à atual Cascata, o passo é mínimo.

No Mensalão, tivemos a interessante figura de Roberto Jefferson (Nelson Rodrigues faz muita falta!), que era beneficiado pelo esquema mas se santificou através de seu espetacular anúncio. Algo assim como um bandidão delatar a bandidagem de comparsas e posar de pré-anjo. Sempre considerei aquela denúncia uma peça de mídia, da designação (Mensalão, parece mote publicitário no lançamento de novo modelo de carro) aos gritos de horror moral que ecoaram e ainda ecoam na mesma mídia. Todo mundo odeia o Mensalão, ninguém parece ter se beneficiado por ele – exceto os que recebiam os pagamentos diretos.

Na atual Cascata, além dos gritos semelhantes proferidos por beneficiários de corrupções antigas (ou, quiçá, atuais, ainda irreveladas), temos o bis da mesma mídia. E a promessa virtual de que, se isso acabasse (se o corpo não cansasse, se a morte não viesse), a república inauguraria a felicidade pública.

Aviso aos navegantes: sou contra a corrupção, claro, porque esses dinheiros NOSSOS deveriam e poderiam ser usados para fins públicos corriqueiros e mais que urgentes – hospitais, escolas, salários do funcionalismo. O problema é reduzir tudo à ação de indivíduos safados (inimigos visíveis, ratos a serem eliminados num jardim de delícias – o resto, os demais), deixando de lado o papel absolutamente funcional daquelas práticas corruptas dentro do tal do Capitalismo. E não somente do Capitalismo caboclo: corruptos nos EEUU ou no Japão talvez sejam mais sutis e elegantes, os japoneses pegos com a mão na botija até se suicidam ocasionalmente, mas fazem práticas absolutamente paralelas às brasileiras. Um colega historiador americano comentou comigo as fortunas imensas que resultaram da formação de grandes museus de arte estadunidenses, como a National Gallery (Washington DC), criada em 1937. No Brasil, o lindo MASP passou por processos similares e tudo virou folclore pessoal na biografia de Chatô, não foi?

Não é porque o suposto Socialismo deu no que deu que trataremos o Capitalismo como o melhor dos mundos. Pois é, Capitalismo é isso aí – corrupção braba em nome do dinheiro – mas pode sofrer controles mínimos, que a política real trata de anular. Estamos no reino da mercadoria e sua lógica é de que tudo vale a pena se a grana não for pequena.

A mídia faz de conta que corrupção corre apenas nos corredores do Congresso e de outros órgãos de Estado. É claro que ela se faz presente escancaradamente naqueles espaços e isso é grave porque envolve NOSSO dinheiro,impostos que pagamos por cada grão de feijão que compramos. Mas as empresas privadas tanto garantem aquela farra quanto se beneficiam enormemente dela. E mesmo se pensarmos, em abstrato, que há uma pura esfera dos negócios privados (que não existe aqui nem na China), outras corrupções campeiam por ali não apenas no dia a dia da mais-valia (permitam-me evocar esse arcaico conceito mas estamos no território dos velhos – do Restelo e do Pastoril, mais eu – e a mais valia nos lembra que o capital privado também é NOSSO porque o produzimos com trabalho) como também em gestos singelos do tipo ter poder para aumentar os preços dos produtos alegando aumento de custos. Lembro aos mais jovens, avessos à leitura do capítulo sobre a mercadoria que abre “O Capital”, que assalariados não podem fazer o mesmo: o custo de minha auto-produção (comida, bebida, roupa, transporte, moradia, lazer) fica um ano ou mais sem aumento. Quer dizer: fica um ano ou mais DIMINUINDO seu valor. Os preços de ingressos para aquele espetáculo musical maravilhoso (esolham o artista) e os preços das pinturas expostas nas melhores galerias de Arte (escolham a obra) são sublimes corrupções do Belo reduzido à prosaica função de Mercadorias – e muitos artistas, que vêem e fazem ver tão longe, silenciam sobre isso, junto com seus admiradores. Afinal, é melhor para meu currículo dizer que assisti à apresentação daquela peça cujo ingresso individual custava um salário mínimo ou expor em minha sala uma pintura que custou dezenas (centenas ou milhares) de salários mínimos que reconhecer a corrupção no reino dos altos valores também…

O Velho do Restelo impreca e o Velho do Pastoril debocha. Os cães passam e a caravana ladra. O Capitalismo se comporta como se estivesse muito bem, obrigado, e lhe coubesse apenas eliminar uns carrapatos corruptos – Demóstenes, Dirceu.

O buraco é mais embaixo mas o falo é cego.

Nasci em Natal (1950). Vivo em São Paulo desde 1970. Estudei História e Artes Visuais. Escrevo sobre História (Imprensa, Artes Visuais, Cinema Literatura, Ensino). Traduzo poemas e letras de canções (do inglês e do francês). Publiquei lvros pelas editoras Brasiliense, Marco Zero, Papirus, Paz e Terra, Perspectiva, EDUFRN e EDUFRJ. Canto música popular. Nado e malho [ Ver todos os artigos ]

Comentários

Há 7 comentários para esta postagem
  1. Anchieta Rolim 23 de abril de 2012 22:29

    Exatamente Marcos, concordo com você. Porém, o grande problema é o sistema que só contribui para que esses educandos permaneçam cada vez mais despreparados e consequentemente longe desse universo. É justamente esse, o ponto a que me refiro quando falo na importância da educação (a qualidade). Nossos governantes não tem o menor interesse que esse quadro se reverta, por isso, os investimentos são insignificantes e pior, ainda tratam de desestimular os professores, principalmente os da base que lecionam nas escolas públicas. Todos nós temos conhecimento do descaso com que são tratados esses profissionais, os alunos e as estruturas dessas instituições de ensino. A situação é constrangedora, e por quê não dizer caótica. Resultado: O país que aí está.

  2. Marcos Silva 23 de abril de 2012 19:54

    Anchieta:

    Educar é sempre ultra-necessário. Resta indagar: qual Educação? Resposta: aquela que gera seres críticos. Como se vê, a maioria dos educandos, no Brasil, está fora desse universo.
    Mas eu tenho um lado Poliana: as coisas mudam, mudam até pra melhor.

    João:

    É, trago um Alecrim dentro de mim.

  3. João da Mata 23 de abril de 2012 18:52

    Ok Marcos, obrigado pela resposta sincera.
    Ao meu ver, vç não tem nada de Velho do Restelo. Continua aquele menino do Alecrim.

  4. Anchieta Rolim 23 de abril de 2012 17:19

    Em meu entendimento, todo sistema de governo é falho e ultrapassado. Se me perguntarem qual o correto e atual para nosso tempo, eu responderia imediatamente que não tenho a menor ideia. Acho também que todos os países são corruptos. Uns mais, outros menos e tem alguns que extrapolam. Entre esses últimos, cito o Brasil como exemplo ( eu costumo comparar um país a um doente que tem que ser tratado diariamente para que a doença não se alastre pelo corpo, embora sabendo que a mesma não tem cura) Quanto a mídia, entre elas citarei algumas como a televisão, o rádio, jornais e revistas. Principalmente as de grande audiência e circulação. só visam seus próprios interesses e lucros, sejam elas públicas ou privadas, isso é um fato (pode até ser que mude mas não acredito). Ao meu ver o problema está na falta de investimentos na educação.Os países que mais investem nesse setor tem um índice menor de corrupção. Já os que investem pouco ou quase nada… Enquanto esse problema não for resolvido, o barco vai continuar indo à deriva…Sem leme, sem vela e sem motor.

  5. Marcos Silva 23 de abril de 2012 15:02

    João:

    Não comentei o Velho do Restelo, citei-o, bem como citei o Velho do Pastoril, Chacrinha e eu mesmo, na condição de velhos. Há uma dose de ironia nessas citações: os velhos também pensam. Não sou especialista em Camões, sou leitor e admirador do homem e de sua obra – talvez o maior monumento da língua. Conheço um pouco de Pastoril porque integro um grupo que apresenta esse auto, representei, durante bom tempo, o Pastor, atualmente desempenho outras funções no grupo. Encaro a velhice como acidente de percurso, tal qual a juventude (por acaso, nascemos na data tal ou qual). Ser velho ou jovem não garante nada. Noutras palavras: usei alguns recursos literários de riso, contra a ideologia da seriedade de que falava Baeta Neves.
    Não sou contra atos de protesto em relação a cachoeiras, precatórios e que tais. Apenas duvido do excesso de horror em relação a essas corrupções enquanto outras refinadas, que mencionei, permanecem intocadas – corrupções empresariais e intelectuais, por exemplo. Tem uma música antiga de Caetano Veloso, “Épico”, que talvez ajude a entender o drama: “Todo mundo protestando contra a poluição / As revistas de Walt Disney contra a poluição”. No caso da corrupção brasileira, o canal dos Marinho contra a corrupção.
    Mombaça é um bom poeta. Penso que meu texto não é de concordância plena em relação ao que ele escreveu mas encaro com absoluta naturalidade as pessoas pensarem de forma diferente e até se inspirarem na diferença para a abordagem de determinados temas. Não lembro dele falando em Capitalismo e mais-valia, é provável que considero esses temas e conceitos superados. Eu não os considero assim.
    Tem gente que encara o Velho do Restelo (e outros velhos) como meros portadores do conservadorismo e por aí. Discordo disso. Aquele personagem tem dimensão profética e é portador de sabedorias. Isso não impede que Vasco da Gama e seus oponentes sejam também realizadores de outras profecias e portadores de sabedorias alternativas. Camões tinha vasta cultura clássica, devia conhecer a dialética clássica.
    Considero mais importante, em meu texto, a associação entre corrupção e Capitalismo. Sem esquecer que, naquilo que chamavam de Socialismo, havia (e há) corrupções mil.
    Desejo um Socialismo diferente daquilo que levou e ainda leva seu nome. Estou lendo o bonito livro de Hobsbawn “Como mudar o mundo”. Ele reforça um pensamento que eu já tinha antes: o Socialismo está para ser inventado. E o Capitalismo está aí, fazendo essas coisas.
    Abraços:

  6. João da Mata 23 de abril de 2012 11:49

    Marcos, Não entendi bem o seu comentário, tanto no que toca o episodio do Velho do Restelo (que conheço bem) quanto na questão das manifestações. Você é contra sair para a rua para reclamar contra o episodio macabro dos precatórios, em Natal. Do Cachoeira , no Brasil.
    Qual a relação do velho do Restelo com Chacrinha. Gostaria de saber melhor, até porque sou estudioso de Camões.
    O que você quis dizer da imprensa e sua relação com a novela. Favor explicitar nos comentários.
    Tão pouco entendi esse pastoril no seu post. No que você concorda com Mombaça, explicitamente.

    • Tácito Costa 23 de abril de 2012 14:08

      Damata, o texto faz referência a várias coisas, pensei em uma foto de Chacrinha ou do Pastoril (citados), decidi-me por esta última, fui no Google e copiei a ilustração que pareceu-me melhor. Nem sempre é fácil conseguir a ilustração ideal (nem tenho tanto tempo assim pra procurar a foto/ilustração perfeita), a gente se vira com o que encontra.

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