Oscar para o tempo

Por José Miguel Wisnik
O GLOBO

Um dentista meu dizia que, após os 33 anos, há duas saídas: envelhecer ou rejuvenescer

“Boyhood — Da infância à juventude”, indicado este ano, entre outras categorias, para o Oscar de melhor filme, é, além de tocante, diferente de padrões comuns hollywoodianos. O ritmo narrativo não obedece à curva dos picos programados para injetar adrenalina, espicaçar a curiosidade, atiçar os ânimos ou as lágrimas da plateia. Tudo transcorre num movimento contínuo e lento, em que os acontecimentos novos vão, simplesmente, virando a página do que passou. Mesmo assim, não queremos desgrudar o olho da tela. É que, sobre todos os atores (incluindo o encantador protagonista Ellar Coltrane e sua mãe no filme, Patricia Arquette, que ganhou o Oscar de melhor coadjuvante) um grande Ator deixa sua marca imbatível: o tempo. Como no samba de Chico Buarque, “o tempo é a grande estrela” de “Boyhood”.

A filmagem se deu ao longo de doze anos, de 2002 a 2013, e acompanha o crescimento do menino Mason dos 6 aos 18, bem como de sua irmã Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor Richard Linklater). A aparência dos adultos vai se modificando daquela maneira sutil e implacável que conhecemos difusamente na vida, mas que raramente está exposta na tela, sem maquiagem nem efeitos especiais, com método documental subjacente à ficção. Nesse sentido, o filme acompanha certas experiências da arte contemporânea que consistem em registrar as mudanças mínimas que se dão na face e no corpo das pessoas, sem que a gente saiba em que momento exato operou-se a transformação. Nelas se estampa a sensação, estranha e conhecida, de que o tempo está sempre fazendo o seu trabalho, embora nunca saibamos onde nem como, e nem mesmo quando. Nicholas Nixon, por exemplo, fotografou ano a ano a série “As irmãs Brown”, de 1975 a 2010: quatro irmãs sempre juntas, em diferentes graus de maturidade e juventude, indo pouco a pouco para a velhice, amparadas em si mesmas.

Um dentista transcendental com quem me tratava, e que tratava os dentes da gente como um teclado cosmobiológico a ser afinado, garantindo com sua boa posição o equilíbrio geral do corpo, a qualidade da respiração e o foco mental, dizia que até os 33 anos de vida estamos amadurecendo — as possibilidades do organismo humano estão se fazendo e se perfazendo. A partir daí, entramos, sem saber, numa encruzilhada interior em que só há duas saídas: envelhecer ou rejuvenescer. Nos rostos das irmãs Brown, é esse drama que vemos se insinuando e se mostrando, com a dignidade que a companhia de cada uma confere às outras. Nas crianças de “Boyhood”, é o contrário que acontece: o começo é um puro florescer, a festa do colágeno, aquela matéria de um frescor etéreo que faz a carne tenra dos bebês, e que vai se prolongando pela infância até tomar as tonalidades mais sombrias do mutante púbere, essa bomba hormonal com a ossatura do rosto querendo se impor contra a cabeleira que quer escondê-la, tudo se esgalhando sem direção à procura de uma forma.

No filme, esse processo vai se fazendo sem legendas explicativas do tipo “Um ano depois”. É o nosso olho que tem que notar, no movimento da narração, que algo já é diferente, que aquela situação já não é mais, que aquelas pessoas todas, mesmo sutilmente, já não são exatamente as mesmas. É nesse andamento que um menino de 6 anos vai pela primeira vez à escola, que ele e a irmã assistem secretamente às cenas em que a mãe briga com o pai do qual se separou, recusando suas tentativas de retorno, que a mesma mãe vai passando por sucessivos fracassos matrimoniais com homens que se tornam tiranos bêbados, em sucessivas configurações familiares, que o garoto vai topando novas galeras, rivaizinhos galinhos de briga machinhos futuros autoritários. As novas tecnologias de comunicação vão se tornando cotidianas, o adolescente vislumbra a possibilidade de ser artista, fotógrafo, de fugir dos parâmetros médios de uma vida familiar opressiva regida pelos padrastos, ao mesmo tempo em que percebe o peso exercido sobre os indivíduos pela presença universal dos dispositivos de controle. Briga com a namorada por causa dessa percepção crítica da vida, ao mesmo tempo em que vai cheio de expectativas positivas para universidade.

O que se passa pode ser contado sem estragar o filme para quem não o viu, porque são afinal situações correntes nas quais vamos reconhecendo marcas de uma vida de classe média num mundo de hábitos globalizados. Mas o passe de mágica é que não se trata da mera representação disso. Baseado numa tecnologia fotográfica consolidada, que atravessa os doze anos da filmagem sem diferenças na qualidade das imagens, o filme nos apresenta a face real do tempo passando pela face das pessoas, pelas nossas faces, o tempo que temos vivido, que estamos vivendo. Sem escamotear enormes problemas, vemos no rosto daquele menino àquele rapaz o alento permanente de uma coisa boa.

Alguém disse, com razão, que é “uma obra-prima despretensiosa”.

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